quinta-feira, 2 de julho de 2009

PEDRO E EMANUEL


Brasil. Ano de 2029.

Pedro e Emanuel lideram uma banda que faz sucesso em todo o país e começa a conquistar a Europa e os Estados Unidos. Seus shows a bordo de “discos-voadores elétricos”, versão moderna dos antigos trios elétricos, atraem multidões, com canções que resgatam o melhor da musica baiana, numa releitura dos imortais Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dorival Caymmi, passando longe do axé-music, sucesso instantâneo do final do século XX e início do século XXI.

Pedro e Emanuel não esquecem a infância humilde em Itabuna, cidade do Sul da Bahia onde nasceram e despontaram para a música. Sempre que podem, colaboram com campanhas educativas e participam de shows beneficentes no município..

Ou melhor, Pedro e Emanuel formam a dupla de atacantes mais letal e famosa do futebol brasileiro, atuando pelo São Paulo, disparado o melhor time do país, doze vezes campeão nacional e oito vezes campeão da Taça Libertadores e do Mundial de Clubes da FIFA. São nomes certos para a Seleção Brasileira, que em 2030 vai disputar a Copa do Mundo, no centenário da competição. Pedro é cerebral, dono de visão de jogo espetacular e passes precisos. Emanuel é explosão e força, inalcançável pelos zagueiros quando parte em direção ao gol. Ambos, goleadores natos.

Pedro e Emanuel não esquecem a infância humilde em Itabuna, onde despontaram para o futebol jogando em gramados surrados na periferia da cidade. Comemoraram o último título do São Paulo exibindo uma faixa homenageando a cidade. A cena foi mostrada para o mundo todo pela televisão e exibida com orgulho nas edições do Diário da Bahia. Agora e A Região, veteranos órgãos da imprensa grapiúna. Sempre que podem, Pedro e Emanuel vem a Itabuna disputar jogos beneficentes e fazer palestras para crianças e adolescentes.

Melhor ainda, Pedro é médico e Emanuel é advogado. O Dr. Pedro, considerado um dos melhores profissionais de sua área, comanda uma equipe de médicos de vários países, que acaba de descobrir um remédio eficaz na eterna luta contra o câncer. O Dr. Emanuel é um advogado respeitado, defensor dos Direitos Humanos, que alia seu notório saber jurídico a uma postura ética irrepreensível, e deve assumir o Ministério da Justiça.

O Dr. Pedro e o Dr. Emanuel não esquecem a infância humilde em Itabuna, onde estudaram em escolas públicas e subiram na vida à custa de muito esforço. Sempre que podem, vem a Itabuna, onde realizam atendimento gratuito para pessoas carentes e mostram que a perseverança e o talento levam ao êxito profissional.

Ou, digamos que Pedro é prefeito de Itabuna e Emanuel deputado. Pedro realiza uma administração modelo, com os recursos públicos investidos prioritariamente em saúde, educação, saneamento básico e geração de emprego e renda. Sua gestão transformou a periferia, hoje urbanizada e com equipamentos para que crianças, adolescentes e jovens pratiquem atividades que os afastem dos riscos das drogas e da marginalidade. Emanuel tem um mandato pautado na busca de recursos que ajudam Pedro em sua gestão na prefeitura. É de sua autoria o projeto de lei que faz com que as empresas invistam parte de seus lucros em programas sociais e educacionais nas cidades onde estão instaladas.

Pedro e Emanuel não esquecem a infância humilde em Itabuna e fazem da política a ferramenta que está mudando pra melhor a cidade que um dia foi tão maltratada e espoliada. Lideram uma nova geração de políticos e estão cotados para disputarem, juntos, o Governo da Bahia.

Itabuna. Ano de 2009.

Pedro e Emanuel, nos primeiros meses de vida, já lutam pela sobrevivência. Estão alojados num orfanato num bairro paupérrimo da periferia da cidade.

Ambos foram abandonados por suas mães. Pedro, deixado numa caixa de sapatos; Emanuel envolto em páginas amassadas de jornal.

Pra escrever o hipotético e -infelizmente- improvável futuro cheio de possibilidades de Pedro e Emanuel será preciso reescrever o presente de mães, que por absoluta falta de condições de criá-los ou pela desestruturação familiar, são obrigadas a abandonar seus filhos â própria sorte.

Ou, pior, ao próprio azar!

Um comentário:

Paulo disse...

Daniel, fiquei profundamente emocionado com o seu belo texto. Paulo Alves