sábado, 30 de janeiro de 2010

DILMA COLA EM SERRA


O Vox Populi divulgou a mais nova pesquisa sobre a corrida presidencial. A vantagem de José Serra (PSDB) para a ministra Dilma Roussef (PT) caiu de 21 para sete pontos percentuais. Em agosto, Serra aparecia com 39% e agora foi a 34%. Dilma subiu de 18% para 27%.

O levantamento ainda mostra Ciro Gomes (PSB) com 11% das intenções de voto e a senadora Marina Silva (PV) aparece com 6%. Se a disputa é sem o ex-ministro Ciro Gomes, Serra vai a 38% e Dilma, 29%. Em um segundo turno, Dilma seria superada por Serra: 46% a 35%.

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Dilma reduziu a diferença para Serra em 15 pontos, mas sabem qual a manchete do UOL? "Sem Ciro, Dilma cresce menos".

E a do portal da Globo? Nenhuma, o tema foi ignorado.

Com um jornalismo assim, até Delly, a cachorrinha lá de casa que de tão velha já está ceguinha e meio surda, vira "analista política".

Dona Enedina é 100

Dona Enedina esbanjou simpatia em sua participação no Globo Repórter. A reportagem foi do excelente José Raimundo, que apesar de ser uma das estrelas do jornalismo global, é de uma simplicidade que serve de exemplo a essa moçada que, como diria o filósofo Romário, nem entrou no avião e já quer sentar na janelinha.

Confira

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

LULA PASSA BEM, MAS LEVOU UM SUSTO...

Imagens divulgadas pelo Jornal do Comércio, de Pernambuco, mostram o momento em que Lula chegou ao hospital, após uma crise de hipertensão.

Apesar do susto, Lula se recupera bem e deve voltar à luta semana que vem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

W. S. O. e J. S. S.


W. S. O. e J. S. S. não são apenas duas iniciais, embora é melhor que continuem sendo conhecidos assim, para poupá-los de novos constrangimentos.

Porque, de constrangimentos e de privações W. S. O. e J. S. S. já devem estar cheios.

W. S. O. e J. S. S. são feitos de carne, osso e alma.

Talvez mais osso do que carne, talvez nem liguem para essa coisa de alma ou nem tenham tempo para se preocuparem com isso, dadas as necessidades menos transcendentais e mais reais de suas vidas.

W. S. O. e J. S. S. são dois meninos de Itabuna, meninos da Bahia, meninos do Brasil.

Meninos de um mundo absurdamente desigual.

W. S. O. e J. S. S. cresceram num meio em que lhes falta tudo, da comida que sacia a fome aos serviços básicos que garantem uma existência digna.

Integram aquela legião que a estatística aponta como excluídos sociais. Exclusão que uma considerável parte da população brasileira traz no código genético, passando de pai para filho, ainda que seja necessário destacar a validade de programas como o Bolsa Família, porta de acesso para que milhões de brasileiros rompessem a barreira da miséria absoluta e adentrassem, mesmo que de forma modesta, ao planeta cidadania.

Infelizmente esse não é o caso de W. S. O. e J. S. S., detentores da Bolsa Miséria e habitantes do planeta fome.




W. S. O. e J. S. S. são exemplos de que ainda há muito que ser feito, um longo caminho a ser percorrido para que eles e seus colegas de infortúnio deixem de ser apenas estatística.

Ou iniciais que impedem suas identificações.

Poderiam ser Wilson e João, por exemplo, colegas de escola e de time de futebol, filhos de dona Maria e seu José e de dona Antonia e seu Pedro, trabalhadores que moram num bairro onde existe saneamento, lazer, escola de qualidade e posto de saúde que funciona de verdade.

Mas são apenas W. S. O. e J. S. S., que além de engrossarem a estatística da exclusão social, agora engrossam também a estatística de menores que cometem ato infracional.

Na noite de quarta-feira, W. S. O. e J. S. S. foram apreendidos pela Polícia Militar e encaminhados ao Complexo Policial de Itabuna.




O “crime” que eles cometeram: furtar comida, brinquedo e material escolar num supermercado do Shopping Jequitibá.

Para alguns, W. S. O. e J. S. S. estavam pisando no primeiro degrau da escada da criminalidade.

Idiotice pura.
W. S. O. e J. S. S., ao pegarem comida, brinquedo e material escolar sinalizaram apenas as necessidades básicas de que eles foram privados.

Caso efetivamente subam novos degraus nessa escalada infame, a culpa é menos deles e mais de quem deveria zelar para que meninos e meninas como eles tenham presente e tenham futuro.

Um presente e um futuro que lhes está sendo roubado.

Quem é mesmo o ladrão nessa história?

VACONHA


deu no site Radar64, do Extremo Sul da Bahia:

Maconha era misturada com esterco de vaca

A maconha pode estar perdendo qualidade e o usuário consumindo a ‘erva danada’ com um recheio nada agradável: Esterco de vaca.

Foi o que constatou a Polícia Civil de Porto Seguro, ao prender, no bairro Campinho, o traficante paulista Michael da Silva Lopes, 19 anos.

Os agentes encontraram com ele dois tabletes de maconha e sacolas plásticas com as fezes do animal, que seriam usadas para dar mais volume à droga, aumentando, conseqüentemente, o seu lucro.

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PS- Se você passar ali pela Beira Rio, em Itabuna, e ouvir alguem dizendo "muuuuuuuuuuu", já sabe o que é...

Os Magníficos, para ver ou rever


Pra quem ainda não viu ou quer ver de novo, a TVE Bahia reapresenta neste sábado, dia 30, às 18 horas, o documentário “Os Magníficos”, uma comovente obra sobre o apogeu, queda e recuperação da civilização cacaueira, com depoimentos que são bem mais do que um testemunho histórico do Sul da Bahia.

Assisti e vou assistir de novo.

É simplesmente imperdível.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Quando os mortos gritam!


Há quatro meses, o presidente da Associação dos Professores de Porto Seguro, Álvaro Henrique Santos, e o diretor da entidade, Elisney Pereira, foram assassinados num típico crime de mando, executados após uma emboscada na zona rural de uma cidade que é considerada por turistas do Brasil e do Exterior como uma versão do paraíso na Terra.

À época dos crimes, a APLB vinha promovendo uma acirrada campanha salarial, com a temperatura dos protestos atingindo níveis mercuriais, numa categoria até então marcada pela passividade e pelo conformismo.

É mais do que real a possibilidade de que Álvaro tenha sido assassinado por conta de sua militância e que Elisney morreu por estar no lugar errado e na hora errada.

O fato é que duas lideranças sindicais foram caladas a tiros, num crime que chocou os educadores e a população, com repercussão em toda a Bahia. Foram inúmeros os protestos cobrando a punição dos responsáveis e desde então a direção da APLB, agora comandada por Jurandir Nascimento, tem promovido uma espécie de vigília permanente para evitar que os crimes caiam na vala comum do esquecimento e engordem a conta vergonhosa da impunidade.

Decorridos mais de 120 dias após o duplo homicídio, se a brutalidade conta os dirigentes sindicais não foi esquecida, paira no ar essa lamentável sensação de impunidade, já que até agora, pelo menos oficialmente, a polícia não tem pistas nem sobre o autor ou autores dos disparos nem sobre quem mandou disparar.

A direção da APLB não dispõe de uma mísera informação sobre o andamento das investigações e em reunião recente com o secretário estadual de Segurança Pública, César Nunes, ouviram apenas que as apurações correm em segredo de justiça e que por isso nada pode ser revelado.

Resumo da ópera: silêncio total sobre duas mortes cujos assassinos e mandantes não podem ficar impunes, sob pena de incentivar novas tentativas de intimidação, repetindo uma prática nefasta que os baianos já sinalizaram explicitamente que não desejam ver retornar.

Ao declarar que “forças políticas conhecidas procuram impedir as investigações e punição dos mandantes e executores dos crimes, mas a sociedade do município e a Bahia não vão permitir que isso aconteça”; o presidente da Porto Seguro, Jurandir Nascimento, revela o destemor dos que lutam por Justiça.

E revela um sentimento que deve ser de todos aqueles que acreditam que a liberdade de expressão, o direito dos trabalhadores às manifestações e reivindicações e a garantia da segurança do cidadão são pilares básicos da democracia.

Uma democracia que dispensa mártires, por desnecessários que eles são num embate que deve ocorrer no campo das idéias e das propostas e não das armas.

Enquanto pairar a impunidade, os gritos de Álvaro e Elisney continuarão ecoando, não necessariamente como um sinal de desespero, mas essencialmente como um sinal de alerta.

Não existem crimes perfeitos.

Já com relação a apurações imperfeitas...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PAR PERFEITO


Depois de dois relacionamentos mal sucedidos, Eliane Almeida de Oliveira era, enfim, o que se poderia chamar, sem o risco dos exageros da paixão, de uma mulher feliz.

Encontrara o amor de sua vida, o que nestes tempos conturbados, equivale a achar na rua um bilhete premiado de loteria.

Aos 42 anos, o caminho de Eliane, então funcionária da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna e dona de uma empresa de telemensagens (dessas que abarcam de aniversários a casamentos, passando por formaturas, promoções no emprego e outras datas especiais), cruzou com o de Francisco Paulo Lins da Silva, o Chico, de 46 anos.

Pode não ter sido amor à primeira vista, mas pouco tempo depois Eliane e Francisco estavam juntos. A solidariedade, subproduto da paixão, fez com que ela primeiro arrumasse para ele um emprego de motorista na Santa Casa, depois como taxista em frente ao maior complexo hospitalar da cidade.

Às amigas, Eliane definia o namorado como um homem amigo e carinhoso e dizia que colocaria a mão no fogo por ele.

Clientes que se utilizavam de seus serviços, o apontavam como um sujeito atencioso, prestativo e bem humorado.

Dos que conviviam com Eliane, se dizia o mesmo: carinhosa, atenciosa, batalhadora, alto estral.

E feliz no relacionamento quase outonal com Francisco, num idílio que durava dez meses e que parecia eterno e infinito.

Tempos atrás, Eliane trocou o emprego na Santa Casa e o negócio de telemensagens por um cargo na Azaléia, em Itapetinga.

Francisco continuou com o seu taxi.

Eliane vinha todo final de semana a Itabuna, para ficar com os filhos e ver Francisco.

E eles continuaram juntos, apesar da distância, até que a relação começou a esfriar, caminhando para um rompimento que para ela parecia irreversível e para ele soava como inadmissível.

No domingo, dia 24 de janeiro, Eliane Almeida de Oliveira foi encontrada morta na cama de seu quarto. O corpo seminu estava coberto de sangue. Um tiro certeiro no ouvido lhe tirou a vida.

Após sua morte, foram feitos pelo menos quatro saques, além de compras, com o cartão de crédito de Eliane.

Francisco Paulo Lins da Silva, que desapareceu após a morte de Eliane, é considerado pelo polícia como o principal suspeito de ter cometido o assassinato brutal.

Do homem amigo, carinhoso, atencioso, prestativo e bem humorado, agora se sabe que tem três mandatos de prisão preventiva, expedidos pela Justiça de Goiás.

Todos por homicídio.

FOGÃO DE SEIS BOCAS

Do Kibeloco, muito legal.

Tempos Modernos


O cara chega em casa, encontra a esposa deitada na cama e diz todo animado:

- Querida, eu quero amá-la...

Ao que a mulher responde:

- A mala eu não sei onde está. Pegue a porra da mochila, que está no guarda-roupa...

Ele:

-Não é isso, meu bem, hoje eu vou amar-te...

Ela:

-Você pode ir a Marte, Venus, Saturno, a puta que o pariu, mas me deixe dormir...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

BRASIL IL IL IL IL...HIC


O consumo de cerveja no Brasil cresceu mais de 5% e atingiu 10,7 bilhões de litros em 2009.

Com essa marca, o Brasil supera a Alemanha e assume o primeiro lugar no consumo mundial de cerveja.

O título se deve, em parte, ao aumento do consumo na classe C.

E olha que o presidente Lula nem precisou criar o Bolsa Cerveja!

Na parte que me toca, ou que me bebe, também dei minha modesta contribuição a essa importante conquista, alternando a dita cuja cerveja com uma boa cachacinha de alambique.

E água, de vez em quando...

E o Tigre apagou o fogo do Dragão...


O futebol é mesmo o esporte do imponderável, ou uma ´caixinha de surpresas´, como gostam de dizer os amantes dos surrados chavões.

Pois não é que a tal caixinha se abriu na tarde ensolarada de domingo, numa Ilhéus que era mais um convite à praia do que ao futebol?

Ao entrarem em campo para colocar mais uma vez em jogo uma rivalidade que vem desde os tempos imemoriais, Colo Colo e Itabuna viviam situações inversas.

O Tigre ilheense, feito um animal desdentado, vinha de duas derrotas, incluindo um acachapante 1x5 diante do Bahia e ostentava o brilho da lanterna do Baianão 2010.

O Dragão itabunense, soltando fogo pelas ventas, vinha de dois triunfos, um deles contra o badalado Vitória, e brilhava na liderança do campeonato.

Mesmo com o jogo em Ilhéus, o Itabuna era o favorito a consolidar a liderança e afundar de vez o Colo Colo.

Era.

Mais uma vez, prevaleceu a (i)lógica desse esporte fascinante e quando sua senhoria o árbitro apitou pela derradeira vez, o placar apontava 2x1 para o Colo Colo. O lanterna bateu o líder, o Davi do momento derrotou o Golias da vez.

Ganhou o clássico, ganha moral e agora pode iniciar a arrancada para a recuperação. E quem sabe voltar a sonhar com a vaga na fase decisiva.

Quanto ao Itabuna, perdeu um jogo em que deveria ganhar, mas a derrota, além do amargo sabor de perder para o principal adversário, não deve ser encarada como o fim do mundo, pois tem time para seguir adiante rumo à classificação.

O saldo de domingo, dentro de uma rivalidade saudável, é que além do Trigre apagar o fogo do Dragão, o caranguejo ganhou um sabor mais apetecível do que a jaca. Pelo menos até o próximo confronto.

E, de mais a mais, agora como diria o imortal Jardel, um centroavante bom de cabeçada e ruim de cabeça, ´clássico é clássico e vice-versa´.

COITADA DA BOLA

Tudo bem que é começo de temporada, mas o pobre coitado que ficou diante da televisão no domingo esperando assistir alguma coisa que vagamente lembrasse futebol, se desesperou.

Corinthians x Oeste (que bicho é esse?) pela TV Bandeirantes e Fluminense x Volta Redonda (que desce quadrado) pela TV Globo foram duas coisas medonhas, um festival de pernas de pau maltratando a pobre da bola.

Se alguém criasse uma hipotética Sociedade Protetora da Bola de Futebol, o que ia ter de jogador (sic) correndo risco de ser expulso dos gramados não está no gibi nem na telinha da tevê.

Pensando bem, até que não seria má idéia...

TURISMO DE TODOS NÓS

A Bahia se tornou o principal destino turístico do Brasil. Justo, muito justo, diante de tanta beleza e de tamanha hospitalidade. E o Governo da Bahia está veiculando esse belíssimo vetê institucional.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Wagner veste camisa do Fórum Social Mundial


O governador Jaques Wagner (PT/BA) recebeu em audiência o comitê organizador do Fórum Social Mundial Temático da Bahia (FSMT-BA). Na ocasião, membros do Fórum fizeram a entrega simbólica da programação central e camisa do FSMT-BA para Wagner. Estiveram presentes ao encontro membros das centrais sindicais e dos movimentos sociais que participam do comitê de organização do Fórum.

O governador manifestou sua satisfação em receber o presidente Lula para participar do evento. A expectativa de Wagner é que as discussões realizadas no FSMT-BA signifiquem um grande avanço. “Para a Bahia, é uma oportunidade de maior afirmação política em nível nacional e internacional. Além disso, o evento consolida e fortalece as relações com os movimentos sociais e organizações da sociedade civil”, disse.

O presidente da CUT-Bahia, Martiniano Costa, enquanto representante do comitê organizador do Fórum, salientou que a realização do FSMT na Bahia se configura num grande desafio, pelo peso das discussões políticas que devem envolver governos e a sociedade. “É no conflito de idéias que a sociedade cresce e por isso esse Fórum já é um sucesso”, enfatizou.

O Fórum Social Mundial Temático Bahia (FSMT-BA) acontece, em Salvador, entre os dias 29 e 31, após a tradicional edição de Porto Alegre, entre os dias 25 e 29. São esperados para o FSM baiano cerca de 20 chefes de governo da América Latina e África. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já confirmou sua vinda, no dia 30. São esperadas para o evento cerca de 30 mil pessoas.

Com o tema "Da Bahia a Dacar: enfrentar a crise com integração, desenvolvimento e soberania", o evento reunirá cientistas políticos de várias partes do mundo, além de ministros e personalidades como o escritor Paul Singer, o ex-prefeito de Londres, Ken Livingston, o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, entre outros.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Operário em (des)construção


“Era ele que erguia casas/Onde antes só havia chão/Como um pássaro sem asas/Ele subia com as asas/que lhe brotavam da mão/mas tudo desconhecia/de sua grande missão.../ Como tampouco sabia/Que a casa que ele fazia/ sendo a sua liberdade/ era a sua escravidão”.

Trecho de “Operário em Construção´ de Vinicius de Moraes.


O pedreiro Gilcimar Pereira Santos, de 23 anos, provavelmente não conhecia o poema-canção de Vinicius de Morais, que fala dos milhares de trabalhadores anônimos que ganham o pão com o suor de seu rosto, numa profissão estafante e exposta a riscos de acidentes. Gente que ajuda a construir um país, ergue mansões e muitas vezes mora em casas que, que de tão precárias, só com muito boa vontade podem receber o nome de moradias.
É o caso de Gilcimar, morador do bairro São Pedro, na periferia de Itabuna, em que às casas simples, construídas à custa de muito sacrifício, somam-se a escassez de serviços públicos e uma violência desenfreada.
Gilcimar, entre o caminho aparentemente fácil da criminalidade e a vida difícil, mas decente, de trabalhador, optou pela profissão de pedreiro, que lhe garantia uma existência modesta, mas digna.
Atuava como pedreiro, sem carteira assinada e sem poder se dar ao luxo de escolher trabalho.
E na impossibilidade de poder escolher ou dispensar trabalho, Gilcimar trombou com a irresponsabilidade, um item não necessariamente raro no setor de construção civil, notadamente em obras menores, em que a inexistência de equipamentos de segurança ou de respeito às normas básicas do setor expõem os operários a risco de vida.
No caso de Gilcimar, essa combinação foi fatal.
Numa manhã de calor sufocante, ele trabalhava numa construção na área central de Itabuna, quando a barra de ferro que levava nas mãos tocou no fio de alta tensão da rede elétrica.
A violência de descarga foi tão violenta, que o pedreiro morreu na hora, eletrocutado.
Poderia se afirmar que a morte de Gilcimar Pereira dos Santos foi um acidente, uma fatalidade, dessas que podem acontecer com qualquer um.
Não foi.
Além de o operário trabalhar sem equipamentos de segurança, a obra estava embargada pela Prefeitura de Itabuna. O embargo não ocorreu apenas uma, mas duas vezes.
Ainda assim a obra continuou, no lamentável senso comum de que lei existe mesmo é para ser ignorada.
Ou seja: o pedreiro Gilcimar não poderia não deveria estar ali.
Mas estava e do rapaz trabalhador e brincalhão (os amigos afirmam que ele estava sempre sorrindo, encarando a vida com otimismo e bom humor) restou apenas um corpo carbonizado estendido no chão.
Um operário em (des)construção.
Mais uma vítima da irresponsabilidade casada com a impunidade.
Que é rima, mas nunca é solução.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

VERSÕES DIFERENTES PARA UMA MESMA HISTÓRIA


A gente recebe (e envia) muita besteira por email.
Mas esse texto é interessante, no melhor estilo "entre o fato e a versão, vale a versão".
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Se a história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdade, como ela seria contada
na imprensa no Brasil? Veja as diferentes maneiras de contar a mesma história.

Jornal Nacional
(William Bonner):
"Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem..." (Fátima Bernardes): "...mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia."

Programa da Hebe
"...que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi
retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?"

Cidade Alerta
(Datena): "...onde é que a gente vai parar,
cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra
casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte
público! E foi devorada viva...
... um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!"

Superpop
(Luciana Gimenez): "Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do
lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos
há mais de um ano. Abafa o caso"

Globo Repórter (Chamada do programa): "Tara? Fetiche?
Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma
revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo.. Hoje, no Globo Repórter."

Discovery Channel
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

Revista Veja
Lula sabia das intenções do Lobo.

Revista Nova
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama!

Revista Isto É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

Revista Playboy
(Ensaio fotográfico do mês seguinte): "Veja o que só o lobo viu".

Folha de São Paulo
Legenda da foto: "Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador". Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O Estado de São Paulo
Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.

O Globo
Petrobras apoia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.

Um revólver para a noiva


Maria da Silva (nome fictício) tinha todos os motivos do mundo para estar feliz. Na terça-feira de sol, por volta das 8 horas da manhã, seguia tranqüila para o trabalho, num hospital no centro de Itabuna.

Mas não era o trabalho, ainda que um trabalho que ajuda a salvar vidas, que fazia de Maria uma mulher feliz.

Era a concretização de um sonho: o casamento, marcado para o dia seguinte, com aquele que Maria considera sua cara-metade, o seu par perfeito num mundo de tantas uniões imperfeitas.

Nesse misto de expectativa e divagação, Maria caminhava pelas ruas que dão acesso ao hospital.

Caminhava , como caminha todos os dias, com a diferença de que esse na era um dia qualquer. Era a véspera do tão sonhado casamento.

Portanto, um dia diferente.

E acabou sendo mesmo um dia diferente.

Quando cruzava a esquina, já visualizando o prédio do hospital, Maria nem se deu conta que dois rapazes a bordo de uma motocicleta.

Poderia ser uma surpresa do noivo, mandando entregar flores para a amada. Ou algum colega de trabalho, a lhe entregar o presente de casamento de maneira inusitada. Ou mesmo alguém pedindo informação.

Nem flores, nem presentes, nem um prosaico pedido de informações.

Era um assalto. O clássico assalto que se tornou uma lamentável rotina em Itabuna: o piloto para a moto, o carona saca o revólver e anuncia o assalto.

Tudo muito rápido, em plena luz do dia e presenciado por outras pessoas, que impotentes nada podem fazer a não ser presenciar o desespero da vítima.

Com o revólver apontado ostensivamente para a cabeça, o risco real de levar um tiro dada a brutalidade de marginais para quem a vida (dos outros, bem entendido) não vale nada, Maria entregou a bolsa, com documentos, cartões de crédito, dinheiro e o telefone celular.

Quando os motobandidos saíram, com a tranqüilidade de quem faz um passeio matinal, Maria entrou em estado de choque. Foi socorrida pelos moradores, enquanto aguardou pela chegada dos colegas de trabalho.

Demorou para entender o que havia acontecido e deve demorar mais ainda para superar o trauma de uma violência absurda, que está presente do dia da dia da população, que passa por assaltos aos borbotões e termina nos assassinatos contados às centenas.

Nesta quarta-feira, quando subir para o altar e realizar o sonho de sua vida, Maria da Silva, nome fictício mas vítima de uma violência real, deve sentir um calafrio na espinha quando ouvir o padre dizer a frase “até que a morte os separe”.

Faltou pouco para que a morte os separasse na véspera da consumação da felicidade.

Que Maria, enfim, seja feliz, como merecem serem felizes todas as noivas e todas as pessoas do mundo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Charuto e reggae. Na moral!


Essa aconteceu no Carnaval Antecipado de Itabuna em 2002 e foi publicada num site de apreciadores de charutos, de preferência cubanos. Encontrei por acaso nos meus alfarrábios e decidi compartilhar com os companheiros deste blog.

“Na última noite da folia, aproveitava para dar uma relaxada e saia num bloco de reggae, que a gente mantinha só por gostar desse tipo de música e criar uma alternativa para a mesmice do axé. Saimos com Edson Gomes, que apesar de misturar reggae com uma chatíssima pregação evangélica ainda atraia uma multidão.
Como sempre fazia, naquele estresse que é coordenadar a área de comnunicação do carnaval, subi no trio e acendi meu charuto, um Cohiba honestíssimo.
Um rapaz que acompanhava o trio não parava de me fazer sinais pedindo para que eu jogasse o charuto pra ele, certamente confundindo meu puro com outra coisa.
Eu fazia sinais mostrando que se tratava se um charuto, mas ainda assim ele insistia.
Quando o charuto estava no final, joguei a ponta pro rapaz, que ficou numa alegria danada.
Pois bem, demosa volta na avenida, num percurso de três quilomêtros, e quando a gente estava encerrando a apresentação o sujeito, sabe-se lá Deus como, conseguiu escalar o trio e começou a beijar a minha mão, dizendo ´você é moral, você é moral´.
A situação já era inusitada, mas não havia acabado. O rapaz, sem soltar da minha mão, disse:
-Ô moral, eu saí da cadeia só pra ver o Edson Gomes, eu amo reggae...
E, para mostrar que não estava mentindo, levantou a camisa, exibindo inúmeras marcas de bala de revólver nas costas e as indefectíveis tatuagens de quem passa pela cadeia.
Surpreso, eu apenas respondi:
-Ô moral, porque não me disse isso antes? Eu teria jogado era uma caixa de charutos inteira...

sábado, 16 de janeiro de 2010

RETRATO MAGNIFICO DE UMA CIVILIZAÇÃO



A história da chamada Civilização Cacaueira, onde opulência e decadência não são apenas uma rima, envolve personagens e fatos que soariam inverossímeis até na ficção. Mas são incrivelmente reais.

Pouquíssimas regiões no planeta pularam da riqueza extrema para a pobreza franciscana em tão curto espaço de tempo, assistindo, impotente, ao ouro que tudo permitia se transformar no pó que nada valia.

O salto (no abismo) da riqueza para a pobreza, provocado pela vassoura-de-bruxa, que mudou radicalmente a vida de milhares de pessoas, dos mais ricos aos mais pobres, tornou-se uma espécie de tabu no Sul da Bahia, como algo a ser esquecido.

Histórias de vida fascinantes, pela conjunção ápice/derrocada, estavam destinadas ao esquecimento e ao anonimato, visto que é raro alguém assumir, com o espírito desarmado e com a sobriedade necessária, que os reis estão nus e que os reinos se esfarelaram.

A lacuna começa a ser preenchida com iniciativas como o filme-documentário Os Magníficos, dirigido pelo francês Bernard Attal. O filme, com depoimentos fortes e imagens impressionantes, mostra a grandeza e o empobrecimento de famílias de produtores rurais no Sul da Bahia, com foco especial no município Itajuípe.

Os depoimentos de Amélia Amado, herdeira de uma das maiores fortunas do Sul da Bahia e que teve que vender ate o mobiliário para sobreviver, da família Pepe, para quem o mundo era ali na esquina na nos tempos áureos e hoje vive frugalmente; de Paulo Jorge, o Paulão que quando estava enfastiado pegava um avião pela manhã em Ilhéus, fazia a barba num salão chique do Rio de Janeiro, passava a tarde tomando chopp no Copacabana Palace e à noite já estava na fazenda e hoje vive num casebre de madeira; são o relato de uma época que, até para servir como lição, não deve ser relegada ao limbo.

Há ainda os depoimentos de gente que conseguiu enxergar uma luz no fim do túnel, antes de ser atropelado pelo trem descarrilado da crise, como o empresário Helenilson Chaves e sua pregação empreendedora, e o produtor João Tavares, que trata o cacau menos como símbolo e mais como negócio.

E há, também, o depoimento de um trabalhador rural, para quem os bons tempos de resumiram a uma dentadura, substituta dos dentes que doíam e ele ia arrancado; além de uma referência a opulência das festas da alta-sociedade, que faziam dos colunistas sociais espécie de vice-reis.

O filme mescla falas fortes com imagens impressionantes, numa profusão de fazendas fantasmas, amareladas e cacaueiros infestados pela vassoura-de-bruxa. Sem pieguismo, deixando que a emoção salte da voz dos entrevistados e das histórias que cada um tem para contar.

Os Magníficos, que foi apresentado nos centros culturais de Itabuna, Ilhéus e Salvador e exibido pela TV Educativa é um desses filmes que, a exemplo do que mostra, não pode ser relegada a um pequeno público.

É para ser exibido em escolas, associações de moradores, sindicatos e espaços públicos, como um relato de um tempo que não volta mais, como lição e também como uma sinalização de que, mudando paradigmas arraigados há tantas gerações, é possível reescrever a história, substituindo a palavra crise pela palavra oportunidade.

Uma sinalização de que poderemos ser magníficos protagonistas de uma outra História, sem relegar histórias que em sua opulência e pobreza foram igualmente magníficas.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Dona Zilda, quem diria, foi morrer/viver no Haiti


O Haiti, que ocupa metade da ilha de Hispaniola, no paradisíaco mar do Caribe, nasceu como nação há cerca de 200 anos, destinada a ser um exemplo para o mundo.

Uma república forjada na luta de escravos libertos, num tempo em que a escravidão, aberta ou disfarçada, ainda era regra no continente e que outras ilhas e ilhotas ao seu redor ainda penavam como colônias dos países da Europa, antes de serem submetidas a ditaduras brutais.

Dona Zilda Arns, uma catarinense de fala suave e de gestos comedidos, criada na parte rica do Brasil desigual, nasceu para servir, para ser a estrada que pavimenta o acesso de milhares, talvez milhões, de pessoas à inclusão social.

Uma mulher assentada na fé católica, mas que entendeu que a fé necessita estar aliada à ação para quem pretende fazer valer a mensagem de Deus. E que, lançadas as bases da Pastoral da Criança, desenvolveu um trabalho que atingiu todas as partes do Brasil e foi adotado em outros países do mundo.

E é aí que ocorre o imponderável, o momento em que as histórias de dona Zilda Arns e do Haiti se encontram, para se unir em laços que o destino, numa de suas muitas trapaças, tornariam eternos.

O destino glorioso do Haiti trombou com fenômenos naturais como furações, vendavais e terremotos, que aliados a uma ditadura brutal e corrupta transformaram aquela parte da Hispaniola num dos países mais paupérrimos do mundo.

Um país em que, todos os anos, milhares de recém-nascidos e de crianças morrem de desnutrição, na fome endêmica e na ausência de serviços básicos como saúde e saneamento, que compõem um quadro de miséria apocalíptica.

O espírito de solidariedade de dona Zilda Arns a empurrou de encontro ao Haiti, para onde seguiu disposta a implantar ações de combate à desnutrição.

Ela foi salvar vidas, porque a essência de Deus não está necessariamente na conquista de um hipotético reino dos céus, mas na preservação dessa dádiva maravilhosa que é a vida humana.

No momento em que as mãos desse anjo-humano chamado dona Zilda tocavam as crianças haitianas com o poder de oferecer-lhes um futuro, um terremoto destruiu o presente, o futuro e tudo o que encontrou pela frente, reduzindo o Haiti a escombros.

Levou também dona Zilda Arns. Se fosse possível celebrar a morte de quem tanto zelou pela vida, diríamos que ela morreu como morrem os que passam pela vida como protagonistas e não como meros expectadores: cumprindo sua missão, buscando a transformação através do trabalho voluntário e desprendido de vaidades.

O encontro, que se revelou trágico, da história de dona Zilda com a história do Haiti, talvez não seja obra do acaso.

É muito mais provável que seja um sinal.

O sinal de que, inspirados em seu exemplo, homens e mulheres de todo o planeta se unam num imenso abraço de solidariedade.

Agora, para salvar e reconstruir o Haiti.

Depois e sempre para livrar o mundo dos diversos haitis que existem espalhados pelo planeta.

Morta no Haiti, dona Zilda vive.

O CACAU É UM SHOW. PARA ELES...


O cacau, essa planta quase mítica que fincou raízes no Sul da Bahia, forjou uma civilização, fez brotar cidades com feições de metrópoles, gerou riquezas incalculáveis e nas últimas décadas foi abatido por uma doença terrível que atende pelo nome de vassoura-de-bruxa; virou enredo de escola de samba no carnaval de São Paulo.

Com o tema “o Cacau é Show”, durante cerca de uma hora, a história do cacau e a delícia que dele se produz, o chocolate, serão exibidos para todo o Brasil (o desfile é transmitido ao vivo para todo o Brasil), na música e nas coreografias da Escola de Samba Rosas de Ouro, uma das principais agremiações do carnaval paulista, daquelas que sempre entram na passarela para disputar o título.

A letra de autoria do carnavalesco Jorge Freitas, conta a história do cacau desde os maias e os astecas, quando foi considerado o manjar dos deuses, o fascínio que o chocolate despertou na nobreza européia e as delícias de um produto apontado como rei entre os presentes que traduzem o sentimento paixão.

O que poderia ser uma boa notícia para a Região Cacaueira, com a extraordinária divulgação de seu principal produto, acaba servindo como um sinal de alerta, um chamamento a reflexão.

Como o carnaval se transformou num grande negócio, o samba enredo da Rosas de Ouro é menos uma homenagem ao cacau e mais uma propaganda do chocolate. Mais precisamente a propaganda de uma das maiores fabricantes de chocolate do Brasil, cujo nome é quase o mesmo do título do samba.

Apesar de o chocolate ser o filho mais doce do cacau, há uma distância intergaláctica entre ambos.

Mais ou menos como se um fosse o pai pobre e o outro fosse o filho rico.

Ocorre que nesse samba do crioulo (do branco, do amarelo, do vermelho, etc.) doido, o produtor fica só com as migalhas e o fabricante saboreia a maior parte do bolo.

A conta é simples: enquanto o quilo da amêndoa de cacau é vendido por cerca de seis reais, o quilo do chocolate pode chegar a 300 reais. Ou até mais.

Os números são impressionantes. O mercado de amêndoas movimenta R$ 300 milhões de reais/ano e o mercado de chocolate movimenta R$ 4 bilhões/ano. E está em franca expansão.

Experiências regionais de industrializar o cacau, embora bem intencionadas, como a fábrica da Itaisa, ficaram pelo meio do caminho. Outros projetos, mesmo bem sucedidos, são pequenos empreendimentos, diante do volume do potencial de produção.

Na prática, continuamos como meros produtores de matéria prima, como no distante século XIX. Atravessamos assim o século XX e assim entramos no século XXI.

Enquanto não houver mudança de mentalidade, espírito empreendedor e uma política efetiva de implantação de fábricas de chocolate, continuaremos nos comportando como tapuias, trocando nossa principal riqueza por espelhinhos, colares de pedras mulambentas e outras bugigangas.

E constatando que o cacau é mesmo um show.

Para eles e não para nós.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

ZILDA ARNS



Não há como fugir do lugar comum:

Dona Zilda Arns é um anjo de luz que cumpriu sua missão na terra e agora está na companhia de Deus.

Mas vai fazer muita falta nesse nosso mundo tão carente de gente como ela.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O CACAU DÁ SAMBA


O cacau pode não estar dando muito dinheiro, mas pelo menos está dando samba.

Isso mesmo: o cacau é o tema da Escola de Samba Rosas de Ouro no carnaval deste ano em São Paulo.

Vá lá que falta uma referência explícita ao Sul da Bahia, mas só o fato de ter o nosso principal produto mostrado por uma das principais escolas de samba de São Paulo, com o desfile transmitido ao vivo pela Rede Globo, com inevitável citação cenográfica a Jorge Amado, é uma divulgação e tanto.


Confiram a letra, de autoria do carnavalesco Jorge Freitas:


'O cacau é show'

É tão doce sonhar
E recordar a própria história
Eu, que já fui dádiva celestial
Em misteriosas civilizações
Fui batizado de cacau
Caminhei entre Maias e Astecas
Consagrei o meu “valor”
Caí na graça e no gosto
Na taça do imperador

A nobreza da Europa, eu conheci
E num tal “mexe-mexe”, eu me vi
Ganhei um gosto especial
A mistura “deu carnaval”!

Sou rei entre os presentes
Se for falar de paixão
Nos sentidos dessa gente
Posso tocar um coração
Agradeço a cada sonhador
Que me deu forma, brilho e cor
Estou aqui pra festejar
Hoje sou o símbolo da vida,
Renasci nessa avenida
Na escolha popular

Tá na boca do povo:
“O Cacau é Show”!
Sou Rosas, Rosas de Ouro
Meu sabor te conquistou!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

OS OUTROS FILHOS DO BRASIL


Há mais de cinco décadas, um menino subiu num pau de arara, com a família, fugindo do flagelo da seca no sertão nordestino. Viajou 13 dias até chegar a São Paulo, comeu o pão que o diabo amassou e não contente ainda cuspiu, aprendeu a profissão de metalúrgico, se transformou num líder sindical respeitado, fundou um partido de trabalhadores, disputou e perdeu três eleições para a presidência da república, até que...

Bem, essa é uma história fantástica e que virou até filme, com o título de “O Filho do Brasil” e que todos já conhecem.

O pau de arara, que trouxe o menino assustado que depois se tornaria personalidade planetária, deveria nos remeter aos tempos de antigamente, símbolo de um Brasil atrasado, caminhando lentamente para a modernidade.

Quase uma alegoria a alimentar o mito que superou a distância entre o Brasil pobre e o Brasil rico e, no comando desse país, vem procurando reduzir essa distância na prática, embora ainda haja um longo caminho a ser percorrido.

Mas, infelizmente, o pau de arara, esse sistema de transporte coletivo arcaico, desumano e arriscado, não é uma alegoria.

Tanto tempo depois, tanto progresso depois, o pau de arara continua circulando pelas estradas poeirentas deste imenso Brasil e também pelas grandes rodovias, transportando gente como se transporta gado. Muitas vezes, transportando gente como nem gado se transporta.

E, pela completa falta de segurança, matando gente.

Foi o que aconteceu no domingo, dia 10, em plena rodovia BR 101, elo de ligação entre o Sul/Sudeste com o Nordeste do Brasil.

Nas proximidades da cidade de Tancredo Neves, no Sul da Bahia, um caminhão pau de arara, que transportava cerca de 30 pessoas para a zona rural, todas elas amontoadas na carroceria, bateu de frente numa moto. Testemunhas alegam que o motorista do caminhão perdeu a direção.

Sandro Gerônimo de Jesus e João de Jesus Oliveira estavam na moto e morreram na hora. Genival Nascimento dos Santos, Zélia de Jesus Andrade e Luiz Carlos dos Santos Sacerdote, que eram passageiros do caminhão, foram lançados para fora da carroceira e também morreram.

28 pessoas, todas elas passageiras do pau de arara, ficaram feridas, nove delas internadas em estado grave.

Genival Nascimento dos Santos, Zélia de Jesus Andrade e Luiz Carlos dos Santos Sacerdote, que encontraram a morte em vez do destino glorioso na madeira dura do pau de arara, são os filhos de um Brasil que nem deveria existir mais.

Mas que resiste em forma de exclusão social e, forçoso dizer, desse misto de irresponsabilidade e omissão de quem deveria fiscalizar e fecha os olhos para essas armadilhas, que passam impunemente pelos postos de fiscalização, como se invisíveis fossem.

Sandro, João, Genival, Zélia e Luiz Carlos, cuja chance de virarem filme é zero, são apenas o enredo quase anônimo de uma tragédia tantas vezes anunciada.

Transformados em cinco cruzes na beira de estrada, muito fariam se suas mortes conseguissem por um fim a esse tipo de transporte.

É pouco provável que isso ocorra.

Um pau de arara, e lá se vai muito tempo, transportou o imponderável.

Os de hoje transportam apenas vítimas em potencial.

Ou vítimas reais como Sandro, João, Genival, Zélia e Luiz Carlos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

CASO LEAL SERÁ REABERTO

EXCLUSIVO: A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos vai pedir formalmente ao Ministério Público a reabertura do caso Leal.

A decisão de solicitar novas apurações foi confirmada pelo secretário Nelson Pelegrino à Sociedade Interamericana de Prensa (SIP)

O jornalista Manoel Leal, diretor do jornal A Região (Itabuna/BA), foi assassinado em janeiro de 1998 e muito por conta das investigações capengas, apenas o ex-policial civil Mozar Brasil foi condenado. Os mandantes continuam desfrutando da mais completa impunidade.

Calcinhas inglesas, cuecas brasileiras


Ian Stafford é prefeito de Preesall, uma insossa cidadezinha no interior da Inglaterra.

Ou melhor, era.

Ele renunciou ao cargo depois que foi flagrado cometendo uma irregularidade. A população não perdoou aquilo que considerou má conduta do administrador que elegeu para zelar pela cidade.

E lá se foi o mandato de Ian Stafford.

Seu crime?

Roubar calcinhas.

Por fetiche ou por algum, digamos, desvio freudiano, o fato é que as câmeras que tudo vigiam, flagraram Ian, primeiro numa loja, depois numa casa, surrupiando as calcinhas de suas recatadas cidadãs.

Pego com as calças, perdão, as calcinhas, na mão, Ian Stafford ficou sem o cargo, eventuais mordomias e voltou à sua antiga profissão de jardineiro, que lá na Inglaterra tem até certo status, mas nada que chegue perto da nobre função de prefeito.

E ainda teve que devolver as calcinhas às suas legítimas donas.

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José Roberto Arruda é governador da Brasília, a capital do Brasil, centro do poder político do país.

E tudo indica que continuará sendo

Ele não renunciou ao cargo mesmo flagrado pelas câmeras cometendo aquilo que por aqui se chamada popularmente de gatunagem.

Arruda foi filmado, com uma qualidade de imagem que não deixa margem para interpretações dúbias, recebendo maços de dinheiro de um assessor que operava um generoso esquema de propinas em seu governo.

Teve a preocupação de sair com o dinheiro sem ser notado e para isso recorreu a uma proverbial sacola, dessas que gente honesta usa para fazer compras e alguns políticos usam para levar dinheiro roubado dos cofres públicos.

Se Arruda recorreu às sacolas, seus auxiliares, igualmente flagrados recebendo propinas, recorreram às cuecas para esconder o dinheiro, prática que nos últimos anos tornou-se padrão no Brasil, elevando a produção de modelos tamanho GG.

Com notória cara de pau, Arruda disse que o dinheiro da sacola era para compra de panetones para distribuir aos pobres no Natal. Rendeu muitas piadas, mas punição que é bom, nada.

E, por fim, mantido no cargo, Arruda passou ainda mais óleo de peroba na cara de pau, ao dizer que perdoava seus detratores e que pedia perdão por seus erros.

Como se, em vez de surrupiar recursos oriundos Deus e os corruptos sabem lá de onde, tivesse atravessado um sinal vermelho, deixado de ajudar uma velhinha a atravessar a rua ou roubado (ops) o pirulito de uma criança.

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De Ian Stafford, pode se dizer que deu o azar de ter nascido num país onde roubar calcinhas é crime, seja ele um jardineiro ou um prefeito.

De José Roberto Arruda, pode se dizer que deu a sorte de ter nascido num país onde roubar é ou não é crime, a depender do status de quem rouba.

Pensando bem, nessa coisa de calcinhas e de cuecas, há que se inverter o espírito da coisa.

Sorte tem os ingleses e azar temos nós, brasileiros.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

FILHO DO BRASIL, CIDADÃO DO MUNDO


Um menino nasce no paupérrimo sertão de Pernambuco, em meio à seca que espalha a fome.

Viaja com a mãe e os irmãos num pau de arara durante 13 dias e ao chegar a São Paulo, encontra o pai ignorante e violento. Para sobreviver naquele ambiente de miséria absoluta, vende amendoim e engraxa sapatos.

A mãe, cansada das agressões, separa-se do pai. O menino e o irmão são criados com todos os tipos de provações. Para completar, numa noite de chuva forte, a enchente destrói os poucos pertences da família.


Já adolescente, ele vai ao cinema pela primeira vez, com uma roupa emprestada.

Realiza um curso no SENAI, aprende a profissão de metalúrgico, naquilo que parecia ser o degrau máximo de sua existência, e conhece a dureza da vida na fábrica.

Avesso à política, apaixonado por futebol, aos poucos vai percebendo a relação explorador-explorado que existe entre patrão e empregado. Na pressa para produzir mais e mais, perde um dedo num acidente de trabalho.

Mas ainda assim reluta em entrar no efervescente movimento sindical.

Por conta da precariedade do sistema de saúde pública, perde a mulher grávida e o filho que estava para nascer.

O clima de tensão na vida operária, que coincide com o endurecimento do regime militar, o empurra de vez para o sindicato, primeiro como diretor obscuro, depois como presidente, numa ruptura com o peleguismo vigente.
Torna-se um líder corajoso e carismático, capaz de reunir até cinqüenta mil operários em assembléias em que seus discursos mimetizam a multidão. Comanda uma greve que catalisa o país e começa a abalar as estruturas do poder militar.

É preso pela ditadura. A mãe, o esteio de sua vida, morre enquanto ele está na cadeia.

Da militância sindical, migra para a política. Ajuda a fundar um partido preferencialmente de trabalhadores.

Transforma-se numa liderança nacional, espécie de referência, de exemplo de superação.

Disputa uma eleição para Presidente da República. Perde.

Percorre o Brasil em caravanas da cidadania em que conhece, ou melhor, revê a miséria que atinge milhões de excluídos. Disputa de novo a eleição para Presidente da República. E, de novo, perde.

À frente de seu partido, comanda a mobilização por um país mais justo, menos desigual. Disputa sua terceira eleição para Presidente da República. Mais uma vez, perde.

Não desanima, continua sua luta.

Disputa pela quarta vez a eleição para a presidência da República. Vence.

Enfrenta um furacão provocado por uma crise ética no partido, sofre uma campanha voraz por parte da mídia, mas é amado pelo povo. Reelege-se com a maior votação da História.

Seu governo promove, como nenhum outro, a inclusão social. É atropelado por uma crise mundial, mas o país sai ainda mais forte do vendaval.

Torna-se uma liderança de dimensão planetária e garante seu lugar na História como um dos presidentes mais admirados que o Brasil já teve.

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Se um filme com um enredo desses passasse em Marte, Júpiter, Saturno ou numa outra Galáxia, um ET estupefato diria:

-Isso só acontece no cinema.

Aconteceu na vida real e é a história de Luiz Inácio Lula da Silva.

Está em cartaz nos cinemas brasileiros e, visto sem o maniqueísmo “adoro/odeio” Lula, tem pouco ou quase nada de propaganda política disfarçada e muito de uma história de superação, de que a perseverança e uma boa dose de sorte são capazes de driblar até essa entidade trapaceira chamada destino.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O FILHO E A FILA


Depois de assistir ao filme “Lula, o Filho do Brasil” no cinema do Shopping Jequitibá/Itabuna (lotado), o cidadão resolveu fazer umas comprinhas no Hiper Bompreço.

Encarando uma espera interminável para chegar ao caixa, comentou com bom humor:
-Gastei mais tempo na fila do Bom Preço do que assistindo o filho do Brasil.

E olha que o filme tem quase duas horas de duração!

Como diria Lulinha, ô fila da p...

INFELIZ ANO NOVO


Cariocas, paulistas e gaúchos, numa vasta extensão deste Brasil continental, entraram em 2010 chorando a tragédia provocada pelas chuvas.

No Rio de Janeiro, a paradisíaca Angra dos Reis se transformou num inferno, com os deslizamentos de terra que ceifaram dezenas de vidas.

Em São Paulo e no Rio Grande do Sul, as chuvas provocaram inundações de proporções diluvianas. Milhares de famílias ficaram desabrigadas, cidades ficaram isoladas, casas foram destruídas e muitas pessoas perderam a vida.

Mais do que perder aquilo que foi construído com tanto sacrifício, chorou-se pelos mortos. O bem material se recupera, a vida não.

Enquanto uma parte do Brasil sofria com as chuvas, uma parte considerável dos Estados Unidos, Canadá, Europa e da Ásia penava com as maiores tempestades de neve das últimas seis décadas. A neve parou o sistema de transportes, provocou acidentes, afetou cidades inteiras e matou muita gente.

O que parecia paisagem de sonho, coisa de cartão postal ilustrado com Papai Noel saindo lá dos confins do Pólo Norte, se transformou num pesadelo. Um mundo branco, congelado e sombrio.

Chuvas no Brasil, neve no Hemisfério Norte e, como se fosse pouco, terremoto no Oceano Pacífico, provocando o medo de novos tsunamis. Nas ilhas destruídas pela fúria dos terremotos, mais mortos.

A chuva, a neve e o terremoto que causam mortes e devastação seriam fatos isolados, mera coincidência terem ocorrido ao mesmo tempo ou conseqüência de uma mesma causa, a forma como o planeta vem sendo explorado pelo homem?

Pelo menos no caso brasileiro, não se pode atribuir a culpa pela tragédia à natureza. Os deslizamentos de terra ocorreram em áreas de encostas, onde a ocupação urbana foi feita de forma desordenada e, em alguns casos, irresponsável.

O mesmo vale para as enchentes, que afetaram a capital paulista e outras cidades. Ocupações irregulares, expansão imobiliária sem planejamento, assoreamento de rios, córregos e canais, destruição de encostas. Tudo isso somado, a força das águas ganha dimensões incontornáveis.

Aas tragédias se tornam inevitáveis.

Enquanto houver omissão as autoridades, falta de planejamento urbano e gente ocupando espaços inadequados para moradia (mas, aí é por conta da necessidade mesmo), os fogos e as esperanças renovadas de um novo ano serão abafados pela dor de quem começou 2010 sem nada.

E pela ausência dos que, tragados pela fúria das águas, nem conseguiram entrar em 2010.

IMBECIS NO VOLANTE

No Sul da Bahia, esse ano como todo ano, as estradas tem sido cobertas com sangue dos acidentes quase diárias, com vítimas fatais e dezenas de feridos.

A imprudência ao volante continua sendo regra, num festival de irresponsabilidade.

Um bando de imbecis que, não contentes em arriscar a própria vida, coloca em risco a vida dos outros.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MEU ETERNO CAPO

A propósito da reparação pela morte de Manoel Leal, que não traz meu velho Capo de volta, mas é um alento contra a impunidade, encontrei nos meus alfarrábios esse texto escrito em 2003.

Incrível como parece atual. Leal é dessas pessoas que morrem mais parecem vivas.

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Manoel Leal, notícias de
jornal e outras histórias


Há exatos cinco anos, no início da noite de 14 de janeiro de 1998, seis tiros calaram Manoel Leal.
Ainda que assassinos e mandantes continuem protegidos pela impunidade, não se vai aqui repetir o que se escreveu ao longo dos anos, até por ser desnecessário, tanto o que já se falou sobre o crime.
O que vai se fazer aqui é uma homenagem.
Manoel Leal de Oliveira. O maior jornalista que já surgiu nesse chão grapiuna.
Manoel Leal de Oliveira, o cordeiro que às vezes brincava de ser lobo.
Manoel Leal, o que assumia os defeitos e não espalhava as virtudes que tinha.
Manoel Leal.
Nunca, em tempo algum, uma ausência se fez tão presente.
Desconheço, ao longo dos anos, uma conversa de bar que não tivesse convergido para seu nome. Que não remetesse a alguma história protagonizada ou inventada por ele.
Manoel Leal das malhas impagáveis, como a do soco que Carlito do Sarinha deu em Hamilton Gomes, quando na verdade Hamilton foi quem bateu em Carlito. “No meu jornal, amigo meu não apanha, só bate”.
Dos trocadilhos impagáveis com o amigo Hermenegildo, a quem dizia ser muito ágil, numa referência nada sutil à palavra ágio. Amigos, tanto que nas horas de aperto, lá estava Leal batendo às portas do ágil Hermenegildo. E sem pagar ágio.
Da piada infame que contava centenas de vezes, e só ele achando graça, na presença de Roberto Abijaude:
-Vocês árabes são muito unidos...
E completava:
-Também, vieram para o Brasil amarrados no porão do navio.
Da maldade com uma amiga paulista que fez comer o bago de jaca, até então uma fruta desconhecida para a mulher.
Do fogão novo enviado “por engano” para a casa do amigo Flávio Monteiro Lopes, apenas para que a esposa pensasse que ele tinha outra.
Das flores enviadas semanalmente para Nilson Franco, em nome de uma mulher misteriosa.


O Manoel Leal que pegava a máquina fotográfica e ficava na porta da Cesta do Povo fotografando as dondocas que escondiam o rosto com suas bolsas de grife. Isso num tempo (e bota tempo nisso!) em que Cesta do Povo era coisa de pobre.
De uma generosidade que não cabia no coração cambaleante.
E. vamos ao que interessa, de um talento para fazer jornal, do qual não apenas fui infinitas vezes testemunha como também co-autor, que é possível dizer sem correr o risco de cair no ridículo que nunca haverá alguém como Manuel Leal.
Esse faro para a notícia aliado a um destemor apavorante fez de A Região um jornal que não era apenas um veículo de comunicação.
A Região era aguardado nas bancas. Algumas de suas edições se esgotavam logo no domingo, menos de 24 horas após o jornal começar a circular.
E não eram apenas as Malhas Finas e Malhas Grossas, capazes de arrasar reputações ou garantir gozações ao longo de uma semana.
A notícia, muitas vezes exclusiva, muitas e muitas vezes corajosa, algumas vezes beirando a irresponsabilidade, era o combustível que alimentava o jornalista Manuel Leal.
Tráfico de Crianças, Importação de Cacau, Esquema dos “Cabritos” envolvendo autoridades, Fraude no Vestibular da Uesc, Liberação dos recursos do cacau pelo então governador Paulo Souto sem as garantias necessárias. E mais uma infinidade de notícias que A Região deu porque só Leal sabia ou porque só Leal tinha coragem de publicar.
Manoel Leal era um garimpeiro de notícias. Isso é raro.
Numa noite de 1995, véspera da eleição municipal. A Justiça determina a apreensão da edição do jornal.
Ordem cumprida com um batalhão de PMs armados até os dentes na porta da gráfica. Leal calmo.
Quando a polícia sai, pergunto:
-Você entregou o jornal assim, sem mais nem menos?
A resposta, seca, irônica.
-Menino, você não notou nada? Eles levaram mil jornais. O resto está aí no fundo.
Na madrugada, milhares de exemplares da edição apreendida eram espalhados pela cidade.
No episódio da denuncia de fraude no Vestibular da Uesc, talvez o maior furo da história do jornal e de toda a imprensa itabunense, a edição sendo impressa na gráfica, Manoel Leal liga aflito para minha casa:
-E se esse negócio não for verdade?
Duas horas da madrugada, morto de sono, igualmente aflito com a possibilidade de uma barrigada monumental, só consigo responder:
-Nós dois estamos fodidos.
No dia em que um navio trazendo cacau atracou no porto de Ilhéus,
Leal esqueceu-se que era jornalista (porque também era produtor) e postou-se feito um Dom Quixote diante da embarcação, tentando impedir o desembarque.
Simbólico, embora hoje soe apenas engraçado.
O tempo tem dessas coisas.
Há que se cobrar, até a punição dos responsáveis, que o assassinato de Manoel Leal seja esclarecido. Porque esse é um crime que, decorridos cinco, dez, cinquenta, cem ou quinhentos anos, vai permanecer como uma mancha na história da cidade
Há também que se resgatar histórias de alguém que, parafraseando Nietszche, era “humano demasiadamente humano”.
Nas virtudes, nos defeitos. Na vida e na morte.
Mesmo para quem, entendam como quiserem, não morreu.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

MAIS UM PASSO CONTRA A IMPUNIDADE


A Assembléia Legislativa da Bahia aprovou e o governador Jaques Wagner sancionou o Projeto de Lei número 18.468/2009, de autoria do Governo do Estado, que determina a concessão de indenização aos filhos e à viúva do jornalista Manoel Leal de Oliveira, em cumprimento ao acordo celebrado entre o Estado e os beneficiários, atendendo às recomendações da Comissão Interamericana de Direitos Humanos - CIDH, da Organização dos Estados Americanos - OEA. Trata-se de uma reparação pela morte do jornalista, assassinado em janeiro de 1998, num crime onde até agora foi condenado apenas o ex-policial Mozar Brasil, apontando como o autor dos disparos contra o fundador do jornal A Região, semanário com sede em Itabuna e circulação no Sul da Bahia.

Ao conceder a indenização, o Estado reconheceu responsabilidade no dever de zelar pela liberdade de imprensa e garantir a atuação dos profissionais de comunicação. O deputado estadual Capitão Fábio disse que “essa posição do governador Jaques Wagner é um exemplo de respeito à liberdade de expressão e ao papel importante de uma imprensa livre, democrática e comprometida com a verdade”. Para o deputado, “mais do que o valor material da indenização, a reparação sinaliza o fim da impunidade e o respeito aos jornalistas que exercem suas funções com dignidade”. A indenização será paga à família de Manoel Leal no dia 7 de abril. Dia do Jornalismo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

PARA BEBER E COMER



Isso porque é Nova Schin.

Se fosse Bohemia, vinha logo duas de brinde...

domingo, 3 de janeiro de 2010

UM PARAÍSO CHAMADO SAQUAIRA



A luz da lua cheia se estende sobre o mar, como um tapete dourado a dar boas vindas aos visitantes.

A licença poética faz todo o sentido para se referir à praia de Saquaira, um dos muitos recantos ao longo da Península de Maraú, que se tornou mais acessível a partir da inauguração da estrada que liga Itacaré a Camamu.

Agora, são “apenas” 40 quilômetros de estrada de terra, até atingir praias como Algodões, Taipu de Fora, Barra Grande e a já citada Saquaira.



As praias são exuberantes, a natureza luxuriante e é possível escolher entre o sossego de Algodões e Saquaira e o agito de Taipu de Fora e Barra Grande.

Mas, o que vale mesmo é se encantar com o mar verde esmeralda, corais onde é possível mergulhar e descobrir como a vida pulsa sob a água, fazer caminhadas margeando infinitos coqueirais, admirar o nascer e o por do Sol e contemplar a Lua soberana a ofuscar as estrelas do céu.

Da licença poética para o surrado chavão: se o paraíso um dia existiu, Deus deixou um pedacinho dele na Península de Maraú.



O VELHO DANI RECOMENDA

Praia de Saquaira

Onde ficar: Pousada Flor da Lua. Apartamentos confortáveis, com tevê e ar condicionado, piscina e café da manhã decente. Localização privilegiada, em frente ao mar. Vale também papo agradável do administrador Washington Rosa, um carioca ex-militante de esquerda e diretor teatral, que tomou muita porrada no tempo da Ditadura Militar e se “exilou” por lá, e do faz-tudo Bigode, espécie de Sancho Pança de Washington.

Onde beber/comer: Cabana do Raul. Localizada em frente às piscinas de corais que se formam quando a maré está baixa. Cardápio variado, que vai do peixe frito à lagosta, passando pela moqueca e a mariscada, além de uma cerveja no ponto. O preço, talvez pela proximidade da praia, é meio salgado, mas a alegria contagiante e hospitalidade do Raul compensam.