quarta-feira, 30 de setembro de 2009

LEITURA CANINA



Essa é Delly, a cachorrinha poodle lá de casa, “lendo” uma apostila sobre Medicina Veterinária.

Pode não entender nada, mas presta uma atenção...

DE BIDA PARA NANDA...


De “herança maldita” convencionou-se chamar aquela situação em que um presidente, governador ou prefeito que assume o cargo e se depara com dívidas monumentais e o patrimônio público sucateado, o que praticamente impede a realização de obras e outros investimentos.

Serve tanto para mostrar o quão irresponsáveis são alguns de nossos administradores, como também como uma bela desculpa para não trabalhar, desviar dinheiro e, num moto-contínuo da politicalha, deixar uma nova herança maldita para o sucessor.

A expressão “de pai para filho” nos remete aos empreendimentos de tradição familiar, geralmente bem sucedidos, que passam de geração a geração e em que o sobrenome tem o mesmo peso da marca da empresa.

Serve para mostrar a solidez de uma família e de uma empresa, que graças a esse lastro, é capaz tanto de resistir às crises eventuais, como se adaptar os novos modelos empresariais, de competição feroz e mercados globais.

Pois, num bairro da periferia de Itabuna, o paupérrimo e esquecido Novo Horizonte (cujo horizonte dos sofridos moradores é quase nenhum), os conceitos conhecidos de “herança maldita” e “de pai para filho”, foram subvertidos de forma trágica.

Troque-se apenas o “de pai para filho” para o “de irmão para irmã” e temos o que se pode chamar, no sentido literal da palavra, de herança maldita.

Como nas melhores casas do ramo, Maria Fernanda dos Santos, a Nanda, de 27 anos, herdou o negócio, bastante rentável ao que parece, do irmão José Fernandes dos Santos, o Bida, de 30 anos, assassinado no ano passado num entrevero com a polícia.

O infortúnio do irmão fez com que a jovem Nanda se apossasse do negócio do irmão, na verdade um empreendimento nada ortodoxo, um concorrido ponto de venda de drogas.

No jargão da reportagem policial, Nanda virou a “Rainha do Tráfico” no Novo Horizonte, uma rainha sem trono e sem coroa, sentada sobre um barril de pólvora.

Que, como não é raro nesse negócio lucrativo, mas extremamente disputado, explodiu.

Seguindo a sina do irmão, Nanda também foi assassinada, não pela polícia, mas provavelmente numa disputa entre traficantes.
Seu corpo foi encontrado num campinho de futebol no São Lourenço, outro bairro onde, na ausência do poder público, o crime impõe o terror aos moradores, gente de bem e trabalhadora obrigada a conviver com o medo e a violência.

Nessa tragédia familiar e ao mesmo tempo coletiva que é o mundo das drogas, a herança maldita de Bida para Nanda, que passou de irmão para irmã, se resumiu a uns poucos palmos de terra num túmulo mulambento de um cemitério qualquer, sem direito a choro nem vela.

Esse é um mundo em que reis e rainhas, que na verdade não passam de peões pobres coitados, vêem à majestade virar pó ou fumaça num piscar de olhos.

Ou num apertar do gatilho!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ELA TOPOU


Que a educação é principal, senão a única, ferramenta para a inclusão social e a cidadania, não há nenhuma dúvida.

As nações mais desenvolvidas do planeta, algumas delas envolvidas em guerras devastadoras há pouco mais de meio século, atingiram esse estágio graças a investimentos maciços na universalização e na qualidade do ensino.

No Brasil, o eterno país do futuro que parece não chegar nunca, o ensino público é, salvo as raras e honrosas exceções, deficiente.

Fruto das desigualdades típicas de um país com ilhotas de riqueza de nível europeu e norte-americano e bolsões de miséria similares aos países paupérrimos da África, o Brasil possuiu colégios de excelência no rico Sul/Sudeste e escolas onde faltam até lápis e cadernos e os professores são obrigados a dar aulas para várias séries ao mesmo tempo.

Nesse sistema educacional que nem sempre educa, o analfabetismo é certamente o pior e mais danoso dos subprodutos.

São milhões de pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos que não sabem ler ou escrever, ou são os chamados analfabetos funcionais, que freqüentaram a escola, não foram sequer alfabetizados de forma satisfatória.

A boa noticia é que existem iniciativas governamentais efetivas que estão contribuindo para combater o analfabetismo.

Na Bahia, o programa Todos pela Alfabetização, que atende pelo sugestivo nome de TOPA, tem como meta fazer com que cerca de dois milhões de baianos aprendam a ler e escrever, contribuindo para que o estado deixe de ostentar os maiores índices de analfabetismo do Brasil.

Para simbolizar a real dimensão do TOPA, nada melhor do que a história da aposentada Enedina Pereira da Silva, que está completando 100 anos de vida e é uma das alunas do programa de alfabetização em Ilhéus, no Sul da Bahia.

Rompendo a barreira de um século existência, uma vida sofrida, mas digna, dona Enedina está deixando de integrar a vergonhosa estatística do analfabetismo, para entrar no grupo de cidadãos que sabem ler e escrever.

Na sua fase outonal, ela descortina as portas de um novo mundo: o mundo da leitura, do saber, da educação.

O exemplo de dona Enedina irradiou-se para a família. Seguindo o exemplo da mãe, o filho Lourival Rodrigues, de 61 anos, também está participando do TOPA.
Mãe e filho freqüentam a mesma sala de aula e compartilham as descobertas que só a alfabetização proporciona.

Juntos, percorrem o caminho do conhecimento, cujo primeiro passo é justamente saber ler e escrever.

Em seus 100 anos de vida, dona Enedina oferece o exemplo de que nunca é tarde para aprender a ler e escrever.

Dona Enedina faz aniversário nesta quarta-feira, dia 30 de setembro. Talvez não saiba, mas sua perseverança e força de vontade são verdadeiros presentes para quem acredita na Educação.

Aos 100 anos, ela escreve com suas letras ainda tímidas e inseguras, uma história capaz de mudar para melhor os destinos de um estado e de um país.

sábado, 26 de setembro de 2009

AS MENINAS DO VIADUTO PAULO SOUTO


Uma foto, às vezes, “fala” mais do que mil, milhões de palavras.

Em sendo assim, o que acrescentar à foto do repórter Oziel Aragão, que mostra duas adolescentes, de 14 e 16 anos, se prostituindo no viaduto Paulo Souto, no trevo entre a BR 101 e a BA 415?

Tirando essa maldita mania bajulatória de se dar nome de políticos vivos pontes, viadutos, prédios públicos e quetais, verdadeira praga nacional, a foto revela justamente a ausência do poder público, a histórica inoperância dos nossos governantes para combater essa outra praga: a exclusão social.

Pode parecer ingênuo ou piegas, mas se houvesse menos investimentos em viadutos, pontes e prédios faraônicos que alimentam a vaidade de quem lhes empresta o nome e, não raro, engorda dos bolsos de quem patrocina a obra; e fossem injetados mais recursos em educação, saúde, esporte e geração de empregos, muito provavelmente essas duas jovenzinhas não estariam ali, sob o viaduto, comercializando o corpo e a alma.

As duas meninas captadas pelas lentes de Oziel Aragão, se prostituindo em troco de 5 ou 10 reais, submetidas a humilhações, constrangimentos e muitas vezes agressões físicas; se multiplicam em viadutos, postos de gasolina e restaurantes ao longo da BR 101 e em outras rodovias brasileiras.

São centenas, milhares delas, num desfile de corpos desde cedo marcados pela brutalidade. Meninas-moças precocemente transformadas em mulheres sofridas, sem presente e sem perspectiva de futuro.

Jovenzinhas que deveriam estar na escola ou em atividades de esporte e lazer, lançadas à incerteza das estradas da vida.

Empurradas para a prostituição pela fome, pela desestrutura familiar e, conseqüência natural, pela necessidade de manter o vício das drogas.

As duas meninas sob o viaduto Paulo Souto vendem o corpo não apenas para saciar a fome, comprar roupas e perfumes baratos e eventualmente ajudar no sustento de famílias paupérrimas.

Elas oferecem ao primeiro que aparece por uma quantia irrisória também para comprar crack, essa bomba-relógio de efeito devastador.

É como se a uma tragédia pessoal se acrescentasse outra, mais outra e mais uma outra, compondo a tragédia coletiva da prostituição infanto-juvenil.

Pena que fotos que falam por mil palavras e palavras que tentam acrescentar o que as fotos falam, por mais que despertem compaixão e/ou indignação, não sirvam para mudar a vida das duas garotas do viaduto.

Por que isso não depende de compaixão ou indignação, mas de ação.

Na prática, sempre haverá gente interessada em construir mais viadutos, mais pontes, mais prédios suntuosos.

Quanto às meninas do viaduto e suas colegas de infortúnio, bem, elas que se fodam!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

MANCHA VERMELHA NO PARAÍSO


Descoberta/ocupada pelos portugueses em 1500, redescoberta pelos hippies no final da década de 1970 e ocupada pelos ricos e famosos de todo o mundo a partir da década de 1990, Porto Seguro sempre foi cantada em prosa e verso como a versão terrena do paraíso divino prometido por Deus, depois que Seu Magnífico Esforço de Seis Dias, a criação da Terra, apresentou, digamos, falhas de projeto por conta daquela que parecia ser sua obra-prima: o ser humano.

Terra mágica, de belezas naturais estonteantes e de um astral capaz de relaxar o mais renhido dos estressados, Porto Seguro se transformou num dos principais pólos turísticos do país e ganhou até um aeroporto de padrão internacional, privilégio reservado a poucas cidades de seu porte e que dá bem uma idéia de sua importância.

De pousadas baratas a hotéis ultra-estrelados, Porto Seguro virou uma espécie de Meca do turismo de todos os níveis sócio-econômicos e onde todos convivem na mais perfeita harmonia, seja nas praias sempre lotadas, nos shows que parecem não acabar nunca e nos carnavais que rompem as datas oficiais e duram quase duas semanas.

Porto Seguro de todos os sotaques, todos os idiomas, das lojinhas de artesanato e das lojas de grife, dos restaurantes das comidas simples e baratas e dos estabelecimentos de cozinha internacional e preços na estratosférica.

Enfim, Porto Seguro que é sinônimo de alegria.

Pois é essa cidadã-paraíso (pelo menos para quem a visita e não necessariamente para quem reside lá) que foi manchada de sangue pelo brutal assassinato de Álvaro Henrique Santos, de 28 anos.

Álvaro era presidente do Sindicato dos Professores de Porto Seguro e foi vítima de uma emboscada. Levou um tiro na cabeça, chegou a ser transferido para Salvador, mas não resistiu aos ferimentos.

Na mesma emboscada, morreu outro professor, Elisney Pereira, de 31 anos.

O líder sindical foi atacado num sítio pertencente à sua mãe, feita refém pelos bandidos. A polícia descarta a hipótese de tentativa de assalto e trabalha com a possibilidade de atentado.

Álvaro Henrique Santos comandava uma campanha salarial em Porto Seguro, com ampla mobilização da categoria, que pela primeira vez conseguiu se organizar para reivindicar melhores salários e condições dignas de trabalho.

O presidente do Sindicato dos Professores foi vítima de uma violência inaceitável que se torna ainda mais absurda se for comprovado que ele morreu por conta de sua militância em defesa dos companheiros de profissão.

Não é o caso de transformar o professor Álvaro num mártir, porque é preferível mil vezes o batalhador vivo do que o herói morto.

É o caso, isso sim, de apurar esse crime com rigor e punir não apenas os assassinos, mas também e principalmente os mandantes.

A cidade que tanta gente que aprendeu a gostar não pode se transformar num paraíso de impunidade, um faroeste sem lei.

Que se faça justiça, pois!

UM FILME SOBRE INSEGURANÇA


Imagens colhidas pelo sistema de câmeras de um supermercado de Itabuna e exibido na internet mostram uma mulher sendo roubada enquanto fazia compras.

Ao contrário do que possa parecer, não tem nada a ver com os preços extorsivos cobrados em boa parte dos estabelecimentos do gênero.

Foi roubo no sentido literal, mesmo.

As imagens, feitas de diversos ângulos, focam uma cliente percorrendo as gôndolas do supermercado e enchendo o carrinho de compras.

Mostram também outras clientes circulando, sem despertar qualquer suspeita.

Aos poucos, as imagens vão deixando claro que três mulheres estão menos interessadas nas mercadorias e mais em aproveitar um descuido de alguma cliente para cometer o delito.

E o descuido acontece.

Uma cliente para o carrinho de compras no corredor central e vai até uma prateleira num dos corredores laterais. Desafortunadamente, deixa a bolsa dentro do carrinho.

Em questão de segundos, uma das ladras pega a bolsa, se livra do carrinho que carregava para disfarçar, passa a bolsa para outra ladra, e ambas deixam o supermercado com a cobertura da terceira envolvida no roubo.

As imagens, agora da área externa, mostram as três mulheres no estacionamento do supermercado, caminhando na maior tranqüilidade.

Tudo registrado em detalhes pelas câmeras.

É de se supor, portanto, que o final das imagens mostre as três mulheres sendo detidas pelos seguranças do supermercado e entregues à polícia.

Fiquemos na suposição.

Filmadas à exaustão, numa espécie de big brother do crime, as mulheres fugiram tranquilamente e devem estar aplicando o mesmo golpe em outros supermercados ou até mesmo no próprio local.

Inacreditável que, diante de um roubo filmado com tanta clareza, ninguém tenha se dado ao trabalho de acionar a segurança. Não é para isso que, entre outras coisas, o sistema de vigilância por imagens existe?

É tentador perguntar: se em vez da bolsa de uma cliente indefesa, as mulheres tivessem roubado um quilo de feijão, um pacote de açúcar ou uma lata de leite teriam saído com a mesma tranqüilidade?

Ou teriam sido imediatamente barradas pela segurança?

O fato é que houve uma falha e falhas devem ser corrigidas.

Já não basta a insegurança nas ruas, onde a qualquer momento o cidadão pode ser vítima de um bandido. Até o simples ato de fazer compras se tornou arriscado.

Não dá para ficar tranqüilo nem num ambiente exageradamente vigiado, com câmeras acompanhando cada movimento.

O que se materializou no supermercado em questão, que certamente vai ressarcir a cliente e tomar mais cuidado com a vigilância, foi um filme sobre insegurança produzido por um sistema de segurança.

Você está sendo filmado.

Mas não há porque sorrir.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

PROFISSÃO PERIGO


Do site Radar 64:

Morreu na tarde desta quarta-feira, no Hospital São Rafael, em Salvador, o presidente do Sindicato dos Professores de Porto Seguro, Álvaro Henrique Santos, 28 anos.

Ele foi submtido a uma ciruriga para retirada de uma bala na cabeça na sexta-feira passada, depois de sofrer um atentado no dia anterior,
em Porto Seguro, quando quatro homens invadiram o sítio de sua mãe.

Os bandidos mantiveram reféns a mãe e o irmão do sindicalista e os obrigaram a ligar para Álvaro Henrique. Quando ele chegou ao local, acompanhado do amigo Elisney Pereira, 31, que acabou morto pelos bandidos.

O LEGISLADOR DE PIPAS



Devem estar mesmo tranqüilas as coisas na aprazível Ilhéus.

Com a cidade funcionando às mil maravilhas, não é que um vereador apresentou um projeto proibindo o uso de cerol nas pipas!

A alegação de que o cerol oferece riscos, já que pode provocar até estrangulamento, é aceitável, mas cá pra nós: como e quem vai fazer a fiscalização?

Ou será que no bojo da Lei do Cerol virá outra, criando os Fiscais de Pipas?

Nos tempos do imortal Stanislaw Ponte Preta, isso dava Febeapá com louvor.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

MEU CARRO ERA VERMELHO



Um veículo Gol de cor vermelha, totalmente destruído, chama a atenção de quem passa pela praça Olinto Leone, no coração de Itabuna.

Naquele monte de ferro retorcido, está a história de uma vida.

Ou melhor, a história de uma morte.

Mais uma entre milhares de mortes nessa guerra sangrenta em que se transformou o trânsito brasileiro, sem contar os incontáveis feridos, alguns deles condenados a viver numa cadeira de rodas ou numa cama pelo resto de seus dias.

O que restou do carro vermelho está sendo exibido como parte da programação da Semana Nacional do Trânsito, uma bela iniciativa que envolve a prefeitura e outras instituições.

É certamente a demonstração mais cruel do que a imprudência, essa praga que parece fazer parte do código genético dos nossos motoristas, pode provocar.

Mais do que as condições das estradas ou eventuais falhas mecânicas, é a imprudência, que beira a irresponsabilidade, a responsável direta pela esmagadora maioria das mortes no trânsito.

Excesso de velocidade, ultrapassagens arriscadas, consumo de bebida alcoólica e desconhecimento (ou desobediência) das leis de trânsito, formam os componentes que deságuam nas estatísticas estarrecedoras.

E aí estão as mortes diárias, brutais, ceifando vidas e provocando a dor em familiares e amigos.

Os veículos, que deveriam servir para facilitar a locomoção e gerar conforto, acabam se transformando em verdadeiras máquinas de matar.

Daí a necessidade não apenas de punição, que deve ser feita com rigor para enquadrar assassinos em potencial travestidos de motoristas, mas principalmente de educação no trânsito.

È preciso orientar desde a infância, sobre a necessidade de obedecer as leis de trânsito, dirigir com responsabilidade, respeitar os pedestres.

Educar para, justamente, não precisar exibir veículos transformados em destroços. Para formar uma geração de motoristas responsáveis, que zelem não apenas pela própria segurança, mas também pela segurança dos outros, tantas são as vítimas inocentes da imprudência.

A Semana Nacional do Trânsito inclui ainda outras ações de cidadania, mas é basicamente um alerta para a necessidade de mudança de postura, um chamamento à responsabilidade, ao bom senso.

Uma reflexão.

Não é justo que tantas vidas sejam ceifadas, que tanta gente sofra por algo que pode ser evitado.

Não é justo que esposas esperem maridos, maridos esperem esposas, filhos esperem pais, pais esperem filhos e amigos esperem amigos sem saber se eles sobreviverão a essa absurda guerra cotidiana do trânsito.

Não é justo que carros vermelhos, amarelos, azuis, brancos, pretos, etc. sejam transformados em montes de ferro velho, levando junto o mais precioso dos bens: a vida.

sábado, 19 de setembro de 2009

A ÚLTIMA VÍTIMA


A Bahia viverá na próxima segunda-feira, dia 21 de setembro, um momento único por aquilo que traz de simbolismo.

Neste dia, que já pode ser qualificado como histórico, a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Governo da Bahia realiza um ato de reparação, reconhecendo a responsabilidade do estado no assassinato do jornalista Manuel Leal, por não garantir sua segurança e liberdade de expressão.

Trata-se da primeira vez que um estado brasileiro acata uma recomendação do Comitê Interamericano de Direitos Humanos, entidade que solicitou a reparação.

Manuel Leal, diretor do semanário A Região, foi assassinado em janeiro de 1998, numa emboscada em frente à sua residência no Jardim Primavera, bairro da periferia de Itabuna, a poucos metros das sedes da Polícia Civil e do Batalhão da Polícia Militar.

Na época, o jornal vinha fazendo denuncias fartamente comprovadas contra autoridades municipais e estaduais.

O crime foi uma espécie de “crônica de uma morte anunciada” e só não entrou para a extensa lista de assassinatos insolúveis e nem caiu no completo esquecimento por contra da reação de uns poucos órgãos de imprensa e de instituições como Repórteres Sem Fronteiras, Sociedade Interamericana de Imprensa e Comitê de Proteção a Jornalistas.

Após uma investigação capenga, processos conduzidos com notória displicência e a reabertura do caso por insistência da Justiça, apenas o policial militar Monzat da Costa Brasil foi condenado pelo crime, mas ainda assim manteve o cargo público.

Aos mandantes do brutal assassinato, a mais completa e doce impunidade

A reparação feita pelo Governo da Bahia, longe de transformar Manuel Leal num mártir que ele nunca foi nem pretendeu ser, é uma afirmação inquestionável em defesa da liberdade de expressão, um preceito fundamental para o exercício da democracia.

Leal foi o caso de maior repercussão, mas não foi o único.

Numa década especialmente sangrenta para a imprensa baiana, dez profissionais de comunicação foram assassinados nos anos 90. Pelo menos a metade desses homicídios esteve relacionada diretamente ao exercício da profissão.

A impunidade foi a regra em absolutamente todos os crimes.

Foi certamente a mobilização e a resistência quase heróica de um pequeno grupo de jornalistas que não se intimidaram e nem deixaram que o jornal que foi a razão de viver e morrer de Manuel Leal sucumbisse, como certamente era o desejo de seus algozes; que impediu novas mortes de profissionais de imprensa.

Desde então, nenhum outro jornalista foi assassinado na Bahia.

Encerrou-se um ciclo trágico, que a reparação do Estado reverbera como um compromisso, nem sempre possível de cumprir, de zelar pela segurança e integridade dos que não se curvam aos poderosos de plantão e insistem em fazer jornalismo com dignidade.

Mas trata-se de uma situação só se encerrará quando à reparação se somar o fim da impunidade dos que acham que a violência pode calar uma voz.

Pode até calar, mas gera outras e outras vozes, que não apenas sonham, mas também acreditam na Justiça.

Que tarda, falha, mas quem sabe um dia chega.

Se não para Leal, mas para aqueles que teimam em não deixar a chama se apagar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Noites traiçoeiras


A partir das 20 horas, a maioria dos caminhoneiros que costuma trafegar pela rodovia BR 101 no trecho entre Itabuna e o entroncamento para Feira de Santana e Salvador inicia uma espécie de operação não combinada, procurando um posto de gasolina para passar a noite e reiniciar a viagem nas primeiras horas da manhã seguinte.

Os ônibus que rasgam a rodovia durante a madrugada, viajam em comboio, com grupos de quatro a cinco veículos.

Poucos motoristas de veículos pequenos que atrevem a circular pela BR 101, que possuiu inúmeros trechos em que a distância entre uma cidade e outra pode passar dos 60 quilômetros.

Quando cai a noite, a BR 101 se transforma numa espécie de rodovia fantasma.

O problema, entretanto, não está nas improváveis almas penadas que por ventura decidissem assustar os motoristas.

Longe de ser do outro mundo, a questão para tantos cuidados está nesse mundo mesmo e atende pelo nome de criminalidade.

Se por conta do sistema de comboios os assaltos a ônibus, tão comuns até alguns anos atrás, se tornaram uma raridade, o mesmo não se pode dizer de caminhões e carros de passeio.

As incursões dos bandidos não se resumem aos lugares ermos, em que pode existir sempre um bandido num ponto em que é preciso reduzir a velocidade.

Na semana passada, um veículo de uma prefeitura sulbaiana foi roubado no trecho da rodovia BR 101 no município de Santo Antonio de Jesus.
A abordagem foi feita num quebra molas e além de levar o carro, os bandidos saquearam os passageiros. O crime aconteceu por volta das 22 horas.

Dias atrás, durante a madrugada, a ousadia dos marginais chegou ao ponto de cometerem um assalto coletivo nas barracas que vendem farinha, beiju, frutas e artesanato no trecho próximo à entrada do Vale do Jequiriçá.

Os bandidos, portando armamento pesado, obrigaram os comerciantes a se deitarem no chão e levaram dinheiro e telefones celulares.

No entroncamento de Uruçuca, que dá acesso a Ilhéus, motoristas preferem expor-se ao risco de acidentes e entram direto, em vez de parar no acostamento para fazer o contorno com segurança.

Segurança?

Isso é justamente o que falta numa das principais rodovias do país, elo de ligação entre o Sul/Sudeste e o Nordeste.

O que impera é justamente a insegurança, fazendo com que se atrasem ou se adiem as viagens, a menos que se queira correr o risco de sofrer um assalto.

Nas noites traiçoeiras da BR 101, o bandido por estar na próxima curva, na próxima subida ou no próximo quebra molas.

A espera da próxima vítima.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

PROGRAMA DE ÍNDIO

Esquentou de novo o clima na área que a FUNAI, num relatório preliminar, reconhece pertencer aos índios tupinambás e que abrange parte dos municípios de Una, Ilhéus e Buerarema. Na manhã de quarta-feira, um grupo que se apresenta como tupinambás invadiu seis fazendas em Una. De acordo com trabalhadores rurais, os invasores estavam armados com espingardas, facões, flechas e lanças.

Foram invadidas as fazendas Boa Sorte, Santa Helena, Vencedora, Bom Sossego e Três Riachos. O caso está sendo apurado pela Polícia Federal.

As invasões revelam que por trás da aparente calmaria, instalou-se um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

“Interesse Nacional”


Há quase cinco décadas, Cuba sofre um implacável embargo comercial imposto pelos Estados Unidos.

O embargo se torna ainda mais perverso quando e é extensivo a nações que mantém relações comerciais com os EUA, o que significa que o país que se atrever a fazer negócios com Cuba corre o risco de fechar mercado para os seus produtos na principal potência do planeta.

O embargo foi imposto em 1963 sob o pretexto de que ao dar à revolução que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista um caráter socialista Fidel Castro expropriou propriedades e empresas norte-americanas na ilha.

Na prática, foi uma resposta à ousadia dos cubanos em optar pelo sua autodeterminação, fazendo com que a ilha caribenha deixasse de ser um misto de bordel e cassino dos Estados Unidos, refugio de milionários e mafiosos.

Fracassadas as tentativas de derrubar Fidel Castro, malograda a invasão da Baia dos Porcos, optou-se pelo estrangulamento econômico de Cuba, prejudicando milhões de pessoas submetidas a todos os tipos de privações, incluindo o acesso a medicamentos e e tecnologia.

Enquanto existiu o Bloco Soviético, os impactos do bloqueio não foram tão danosos. Cuba negociava com a URSS, a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia, que hoje nem existem mais como nações. A URSS se esfarelou, as Alemanhas se unificaram e tchecos e eslovacos formaram seus próprios países.

A queda do muro de Berlim e a débâcle dos países socialistas empurrou Cuba a uma crise sem precedentes, fazendo com que Fidel adotasse o chamado “período especial”, com racionamento de energia e de alimentos.

Os cubanos resistiram, preferindo manter a cabeça erguida a voltar a ser um satélite dos EUA.

O fim da Guerra Fria tornou o embargo a Cuba sem sentido.

Que ameaça poderia oferecer uma ilhota de meros 15 milhões de habitantes, com dificuldades para oferecer até os serviços básicos, diante a um gigante econômico e militar?

Ameaça nenhuma, mas o embargo foi mantido.

Meio século de asfixia.

Um crime lesa-humanidade, a que o chamado mundo civilizado fecha os olhos.
A eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, dono de uma trajetória de vida impar e espírito democrático, acendeu a esperança de que o embargo que já não faz mais sentido seria encerrado. Obama chegou a ensaiar medidas, ainda insípidas, para estreitar as relações entre os dois países.

Mera ilusão. Uma de Lei de Comércio com o Inimigo, que proíbe o comércio entre os Estados Unidos e qualquer nação considerada uma ameaça foi prorrogada por mais um ano por Obama.

A Lei é renovada anualmente e o presidente dos EUA acaba de renová-la até setembro de 2010.

“Interesse nacional” foi a justificativa para manter a lei que por tabela mantém o cruel e perverso embargo Cuba.

O gigante, numa desmedida e desproporcional exibição de força, insiste em esmagar o anão inofensivo e fragilizado.

E Barack Obama, que foi eleito sob a perspectiva da construção de um mundo menos tirano e desigual, que só pode virar realidade se houver cooperação dos EUA, demonstrou que em termos de política externa, vale mesmo é a lei da submissão.

E quem não se submeter, que pague o preço.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O GIGANTE E O ANÃO


Rubens Barrichelo, o Rubinho, sempre foi uma espécie de patinho feio entre os pilotos brasileiros que se aventuraram pela Fórmula 1, quando não o bobo da corte, alvo de todo tipo de piada, algumas engraçadas, outras infames.

Rubinho nunca teve a genialidade e o carisma de Airton Senna, a eficiência de Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, nem a técnica apurada de Felipe Massa.

Quando correu pela Ferrari, teve como primeiro piloto ninguém menos do que Michael Schumacher, fenômeno inquestionável da categoria. Não bastasse isso, em nome do jogo de equipe várias vezes foi obrigado a ceder sua posição ao alemão, numa delas a poucos metros da linha de chegada.

O máximo que consegui foi o vice-campeonato da Fórmula 1, o que na cultura brasileira significa ser o último.

Estava no ocaso da carreira, quase se aposentou no final do ano passado, mas ganhou um carro surpreendentemente competitivo e eis que, depois de um início de temporada titubeante e algumas trapalhadas dele e da equipe, ganhou as duas ultimas corridas em Valência e em Monza.

Faltando quatro provas para acabar o campeonato, está na briga pelo título, com chances reais de vencer o Mundial.

Rubinho, enfim, calou seus detratores e mostrou se que não é um gênio, também não é o barbeiro destrambelhado que têm dificuldades até para dirigir um fusquinha.



Como jogador de futebol, Dunga sempre foi coadjuvante em meio a protagonistas como Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldo e Careca, apenas para citar os craques de sua geração.

Ganhou uma Copa do Mundo com uma seleção que não deixou saudades e perdeu outras duas. Na de 1990, na Itália, o futebol feio fez surgir a “era Dunga”. O sucesso indiscutível como jogador, mesmo um jogador mais de transpiração do que de inspiração, nunca teve o reconhecimento que ele deve ter esperado da mídia e da torcida.

Ao levantar a Copa de 1994 nos Estados Unidos, um momento máximo na vida de qualquer jogador, em vez de comemorar, proferiu uma série de palavrões para uma audiência planetária.

Dunga assumiu a Seleção sem nunca ter treinado um time. Foi criticado pela imprensa, enxovalhado pela torcida, mas fez de um grupo quase desmoralizado uma equipe vencedora.

Ganhou a Copa América, a Copa das Confederações, classificou a Seleção Brasileira para a Copa do Mundo com quatro rodadas de antecedência.

Dunga, enfim, calou seus detratores. O coro de “burro” foi substituído pelos aplausos, o reconhecimento. Pode não ser um Telê Santana (que por sinal não ganhou nenhuma Copa do Mundo) ou um Felipão, mas não é nenhum zé mané, incapaz de dirigir até um time de casados contra solteiros.

As semelhanças entre Rubinho e Dunga acabam aí.

Rubinho, mesmo nos piores momentos a nas brincadeiras mais absurdas, nunca deixou de sorrir, de tratar bem as pessoas, de ser aquele sujeito bacana, que faz a gente torcer por ele.

Dunga, eternamente mal humorado e incapaz de sorrir até nos momentos de celebração, é a imagem do ressentimento, que às vezes faz a gente torcer contra a Seleção.

Rubinho é o gigante, que cresce até quando se apequena.

Dunga é o anão, que se apequena até quando se torna grande.

MEIDE IM PARAGUAI

sábado, 12 de setembro de 2009

CAMINHO DE BRASILIA


Ninguém punido, a pior das vilãs se fingindo de santa para escapar da cadeia, e todo mundo se dando bem no final, depois de um festival de mentiras, golpes e falcatruas.

Cá pra nós, do jeito que foi ao ar, o último capítulo de Caminho das Índias bem que poderia ter sido ambientado no Congresso Nacional.

Are baba!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

TEMPO, TEMPO, TEMPO


No mesmo dia em que os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram devastados por fortes temporais, incluindo os temíveis tornados, e São Paulo, a maior metrópole brasileira virou um inferno por conta das chuvas torrenciais; fenômenos idênticos se repetiram em várias partes do planeta.

Na Argentina, no México, nos Estados Unidos, na Turquia e no Cambodja, lá nos confins da Ásia, as chuvas torrenciais trouxeram destruição e mortes em larga escala.

Será apenas coincidência que isso tenha acontecido num único dia, em praticamente todos os continentes?

A resposta, muito provavelmente, é: não!

O clima parece ter enlouquecido.

Talvez seja injusto atribuir a loucura à Mãe Natureza. Mais justo é atribuir a loucura ao homem, esse predador de si mesmo, em sua sanha destruidora e sua completa falta de compromisso com o meio-ambiente.

A natureza apenas está reagindo a séculos de agressão, que se agravaram nas últimas décadas, com a destruição das matas, a poluição do ar, o assoreamento dos rios.

Nesse sentido, a imagem do Rio Tietê, que corta a Grande São Paulo, com seu leito transbordando lixos e esgotos é emblemática.

Em vez de peixes e de vida, montanhas de lixo e dejetos. Um rio morto, em nome do progresso, que pode até gerar riquezas, mas nem sempre gera bem estar.

Saímos do Rio Tietê e vamos para a Amazônia, o chamado pulmão do mundo, onde a destruição atinge níveis alarmantes. Árvores são derrubadas às milhares e o que era mata se transforma em pastagem.

Explora-se o planeta de maneira suicida, como se os recursos naturais fossem inesgotáveis. Como se não houvesse gerações futuras, que necessitarão desses mesmos recursos para sobreviver.

Exaurida, a natureza reage, com essas mudanças abruptas de clima.

Furacões, tufões, ciclones, tornados, tempestades tropicais, terremotos, maremotos e tsunamis. Não são apenas fenômenos naturais como alguns querem fazer crer.

É uma relação de causa e efeito.

O homem agride, a natureza responde.

Pode nem ser necessariamente uma resposta violenta a tanta exploração, mas sim um pedido de socorro.

Como se a natureza estivesse dando um sinal de alerta.

Um aviso de que é preciso repensar o planeta enquanto ainda é tempo.

Por que, se a destruição continuar nesse ritmo, não é preciso ser meteorologista para prever tempo sujeito a chuvas e trovoadas.

No sentido literal e no sentido figurado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Novela da vida (ir)real


São 20;45 minutos numa sala de aula de uma faculdade em Itabuna. Os alunos estão impacientes. Nada a ver com a complexidade do assunto abordado ou com a prova difícil na próxima aula.

A impaciência é em função do início da novela, que está nos capítulos finais. Na impossibilidade de se chegar em casa, a televisão da cantina será proverbial.

O mocinho da novela, que morreu mas não morreu na explosão de um trem, após descobrir que seu filho não era seu filho, vai continuar com a mocinha sofredora, que começou a novela amando um intocável e depois se tocou que o melhor era amar alguém que poderia tocá-la todos os dias?

A vilã da novela, tão má quanto bonitinha, vai pagar pelos seus incontáveis crimes ou dará um jeitinho de se safar da cadeia para aplicar novos golpes?

O empresário que também morreu mas não morreu para poder fugir para Dubai e ficar com a grana que desviou da empresa da família e depois se arrependeu, receberá o perdão dos que lesou?

São 13;30 minutos num restaurante de Cruz das Almas. Um grupo de cinco pessoas, todos servidores do estado, almoça e conversa animadamente. O assunto não é a greve dos professores nem a explosão de violência em Salvador.

É o final da novela.

A professorinha frágil abrirá mão de uma pós-graduação na Inglaterra para se casar com o namorado esquizofrênico, que acredita que Michael Jackson está vivo, que um time do Rio de Janeiro será campeão brasileiro de 2010 e que Sarney é vítima de perseguição da imprensa?

O empresário que morreu mas não morreu para poder ficar com a grana que desviou da empresa da família e depois se arrependeu, receberá o perdão dos que lesou?

São 16;15 minutos num posto de gasolina nas proximidades de Gandu. O frentista discute acaloradamente com o gerente. Nada a ver com as obras de recuperação da rodovia BR 101 ou com os caminhoneiros que insistem em arriscar a própria vida e a vida dos outros tomando “bolinha” para esticar a jornada de trabalho.

De novo, o assunto é o final da novela.

O guarda de trânsito corno que perdoou a mulher fogosa, que não vale nada, mas ele gosta, continuará tendo dificuldades em passar pela porta e usar boné?

Que destino terão as criancinhas que passaram a novela toda fazendo aquela dancinha ridícula? Irão se apresentar na “Dança dos Famosinhos” no Domingão do Faustão ou serão atiradas nas águas sagradas do Rio Ganges, aonde em vez de irem para o brejo as vacas tomam banho?

Situações como as registradas em Itabuna, Cruz das Almas e Gandu se repetem em todas as partes do País, como se os personagens da novela fizessem parte da vida cotidiana cada um de nós.

Os bons são amados, os vilões são odiados e o final feliz, com casamentos, criancinhas nascendo e beijos apaixonados, é ansiosamente aguardado.

Enquanto isso no núcleo pobre da vida real os pobres continuam morando em bairros sem infra-estrutura, com transporte, educação e saúde precários, correndo atrás de empregos improváveis.

No núcleo rico, os ricos continuam desfrutando as delícias de serem ricos, mesmo que á custa da pobreza do núcleo pobre.

No núcleo marginal, os marginais impõem a lei do terror, o tráfico manda e desmanda e a polícia não passa nem perto, tão desaparelhada que está.

E no núcleo político, os políticos continuam legislando em benefício próprio, desfrutam de mordomias que o núcleo pobre nem sonha em desfrutar e surfando nas ondas da impunidade, pois sabem que sempre terão um final feliz.

Mas, cá pra nós, quem é que está preocupado com a novela da vida real, com tantos caminhos e descaminhos (das índias) da novela da vida irreal?

FIM

O VINHO, A AGUA E O CACAU


“Nos Alpes Italianos existia um pequeno vilarejo que se dedicava ao cultivo de uvas para produção de vinho.
Uma vez por ano, acontecia uma grande festa para comemorar o sucesso da colheita.
A tradição exigia que nessa festa cada morador do vilarejo trouxesse uma garrafa do seu melhor vinho, para colocar dentro de um grande barril, que ficava na praça central.
Um dos moradores pensou: ´porque deverei levar uma garrafa do meu mais puro vinho? Levarei água, pois no meio de tanto vinho o meu não fará falta´.
Assim pensou e assim fez.
Conforme o costume, em determinado momento, todos se reuniram na praça, cada um com sua caneca para provar aquele vinho, cuja fama se estendia muito além das fronteiras do país.
Contudo, ao abrir a torneira, um absoluto silêncio tomou conta da multidão. Do barril saiu... água!
´A ausência da minha parte de vinho não fará falta´, foi o pensamento de cada um dos produtores...
Muitas vezes somos conduzidos a pensar: ´tantas pessoas existem neste mundo! Se eu não fizer a minha parte, isto não terá importância´.
E vamos todos beber água em todas as festas e não o bom vinho.”


Substitua-se “vinho” por “cacau” e a historinha acima, muito popular na Itália, tem tudo a ver com o nosso individualismo crônico, tão ou mais danoso do que a vassoura-de-bruxa.

Estamos propensos a achar que a responsabilidade é sempre dos outros e esperar de braços cruzados por uma solução para uma crise que já dura duas décadas.

Culpa-se o governo, culpa-se o clima, culpa-se o efeito estufa, culpa-se a alta ou a queda do dólar, mas falta justamente aquela força motriz, aquela união de esforços capaz de virar o jogo, aquele espírito empreendedor que em décadas passadas fez brotar uma civilização única.

Para que colocar o nosso esforço em prol de coletivo, se é mais cômodo esperar que os outros lutem, reivindiquem, trabalhem?.

O problema é que quando a maioria pensa dessa forma, a minoria abnegada é insuficiente para produzir a mudança necessária.

Em vez de uma lavoura de cacau fortalecida, com industrialização de matéria prima, projetos de diversificação e obras de infra-estrutura, nos resta a estagnação econômica.

Projetos importantes, que produzirão resultados a médio e longos prazos, a exemplo do PAC do Cacau, o Porto Sul e a Ferrovia Oeste-Leste, capazes de gerar um novo e duradouro ciclo econômico, são combatidos, como se em vez de progresso e bem-estar social, fossem nos trazer o apocalipse.

O que seria motivo de união gera cisão, por conta de interesses menores, disputas paroquiais ou questões políticas.

Foi-se o tempo em que era possível transformar água em vinho.

Ao que se sabe isso ocorreu apenas uma vez e seu Autor era dado a milagres, como fazer paralítico andar, cego enxergar, morto ressuscitar.

Hoje, o nome do milagre é trabalho, união, solidariedade, empreendedorismo.

Sem os quais não haverá colheita dos frutos e talvez um dia não haja nem água para beber, quanto mais o vinho para celebrar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

NEM SÓ O JUIZ ERA LADRÃO

Essa aconteceu num jogo da 3a. Divisão da Espanha.

O juiz apitava a partida quando o serviço de alto-falante do estádio anunciou que
haviam arrombado um veículo no estacionamento.

Quando deram a marca do veículo e a placa, não é que o carro era do juiz!

Resultado: o jogo ficou paralisado até que o juiz prestasse queixa à polícia, mas o ladrão escafedeu-se com o celular e outros de sua excelência.

Terá o meliante cem anos de perdão?



LAGOA ENCANTADA. E ABANDONADA!



Se a Lagoa Encantada estivesse localizada na Europa, EUA ou mesmo numa região do Sul/Sudeste do Brasil certamente seria um grande pólo de turismo sustentável, gerando emprego em renda.

Em Ilhéus, em que pese a impressionante beleza natural, com seu espelho d´água de mais de seis quilômetros quadrados, a mata exuberante, cachoeiras de tirar o fôlego e uma fauna e flora excepcionais, a Lagoa Encantada é um exemplo da falta de visão para a atividade turística.

A estrada que dá acesso ao vilarejo de pescadores está de dar pena, impedindo o fluxo turístico e desencorajando investimentos na melhoria da estrutura de comércio, hotelaria e serviços.

Mesmo assim, quem desafia a estrada horrorosa, sai reconfortado e encantado com um dos lugares mais belos desta Bahia de incontáveis belezas.

Uma pena que um paraíso desses esteja fora do roteiro turístico de brasileiros e estrangeiros.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Os excluídos têm o poder de excluir


Nos últimos anos, o Grito dos Excluídos fez parte das comemorações do 7 de Setembro, uma espécie de contraponto ao ufanismo da celebração da Independência do Brasil.

O Grito dos Excluídos, apropriadamente realizado após o desfile oficial, como a delimitar a barreira que separa o Brazil dos ricos do Brasil dos pobres, sempre abordou temáticas que alertavam para a necessidade de romper o enorme fosso das desigualdades sociais, além de denunciar as mazelas da classe política, que quase sempre se preocupa mais com a própria independência.

Independência financeira, per supuesto!

Este ano, a exemplo do que ocorreu no ano passado, não irá desfilar no 7 de Setembro, mas isso não quer dizer que deixará de ir às ruas.

Ao contrário, a Comissão Pastoral da Terra, o Conselho Indigenista Missionário e as Comunidades Eclesiais de Base, além de outras entidades comunitárias, estão unidas numa campanha da mais alta relevância e que tem tudo a ver com o momento atual.

Trata-se de uma imensa mobilização popular para banir os candidatos envolvidos em irregularidades, os chamados “ficha-suja”, da vida política.

A mobilização, que acontece em todo o Brasil, tem o objetivo de coletar 1,3 milhão de assinaturas, necessárias para a apresentação de um Projeto de Lei de iniciativa popular, que declare inelegíveis os políticos envolvidos em corrupção.

A campanha também busca conscientizar a população a não eleger ou reeleger políticos que usam os cargos apenas se locupletar.

Diante do lamaçal em que se transformou a atividade política do Brasil, dos seguidos exemplos de irregularidades dados pelo Senado e pelo Congresso Nacional, além de alguns setores do Executivo, a campanha é mais do que necessária.

Nos últimos meses, às práticas escusas, somaram-se o escárnio e o deboche, como se tudo fosse permitido diante da passividade popular, da quase certeza de que eles podem fazer tudo, porque sempre se mantém infinitamente no poder.

A maneira de evitar que isso aconteça é justamente usar não apenas a lei, porque eles sempre dão um jeitinho de driblá-la, mas essa arma infalível chamada voto.

Para dar um grito de independência desses maus políticos, o povo brasileiro, essa imensa legião de excluídos deve se conscientizar de que tem não apenas o direito, mas também o dever de excluir da política essa gente que tem folha corrida em vez de currículo.

Em Itabuna, os postos de coleta de assinaturas ficam instalados até o dia 7 de Setembro, nas praças Adami, Olinto Leone e Camacã.

Assinemos, pois!

LULA O FILHO DO BRASIL

Em 2010, nos melhores cinemas. E, se bobear, antes nos melhores camelôs...


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Um pouco de futebol, pelo amor de Deus

No seu livro “Futebol ao sol e à sombra”, uma deliciosa crônica sobre a história do esporte mais popular do planeta, que atrai a paixão de bilhões de pessoas, o escritor uruguaio Eduardo Galeando (autor da célebre obra “As veias abertas da América Latina”), relembra os craques do passado, os times de antologia, faz um ´passeio´ pelas Copas do Mundo e revela seu desencanto atual com a falta de magia e de talentos.

A certa altura, Galeano diz que de transformou numa espécie de ´pedinte´, a perambular pelos estádios de futebol mundo afora, implorando por um drible, um passe preciso, um golaço daqueles que desafiam os pulmões dos narradores.

É uma alegoria perfeita para o estágio de um tipo de futebol em que o talento foi substituído pela correria, em que prevalecem os esquemas táticos e 0x0 é comemorado como goleada.

O livro de Galeano vem a propósito por conta do jogo deste final de semana entre Argentina e Brasil, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010.

Desde que o futebol rompeu as barreiras da elite inglesa e chegou à São Paulo e às margens do Rio Prata, brasileiros e argentinos deram ao esporte bretão o status de arte.

De seus campos de várzea brotaram gênios da estirpe de um Di Stéfano, um Nestor Rossi, um Pedernera, um Freidenreich, um Didi, um Zizinho, um Domingos da Guia.

Brotou um semi-deus chamado Diego Armando Maradona.

Brotou um deus chamado Pelé.

Desde os tempos imemoriais, Brasil e Argentina são sinônimos de bom futebol, de toque refinado, passes milimétricos e gols espetaculares.

Como o gol de Pelé na Copa de 58, deixando o zagueiro do País de Gales tonto com um chapéu espetacular e tocando suavemente para as redes.

Ou o gol de Maradona na Copa de 86, driblando o time inteiro da Inglaterra, o juiz, os bandeirinhas e parte da torcida, antes de fazer a bola beijar as redes como o amante beija a amada.




Se os tempos são outros, se os craques escasseiam e vivamos ´zapeando´ os canais de televisão, jogo após jogo, a procura de algo que remotamente lembre futebol, Brasil e Argentina, mesmo sem a magia de outrora, nos oferece essa chance rara.

Não que estejam recheados de craques, mas ainda assim estão acima de média da mediocridade futebolística mundial.

E ainda vestem camisas míticas, que rememoram um passado glorioso, cinco títulos mundiais do Brasil, dois da Argentina.

Na Argentina há um Messi com lampejos de Maradona, espécie de gênio fora de seu tempo, porque insiste em driblar, fazer gols espetaculares.

No Brasil, nenhum fenômeno, mas jogadores capazes de produzir momentos de brilho, como Kaká e, quem sabe, Robinho e o redivivo Adriano.

Por isso tudo, fica a expectativa de que Brasil e Argentina, se optarem pelo jogo e não pela provocação e pancadaria nos ofereçam essa iguaria rara, chamada futebol-arte.

Matarão a nossa fome ou contribuirão para nos deixar ainda mais esqueléticos nessa paixão pelo futebol, que virou regime forçado?

DEUS E O DIABO NA TERRA DO PRÉ-SAL


O que poderia ser (e é) a melhor notícia dos últimos anos para os brasileiros, com a descoberta e exploração de imensas reservas de petróleo na camada conhecida como Pré-Sal, está se transformando numa inacreditável queda de braço, que tem como pano de fundo o interesse eleitoral. Mais precisamente, as eleições presidenciais de 2010.

A exploração do Pré-Sal, que insere o Brasil como um dos maiores produtores de petróleo do planeta, irá gerar recursos que, se aplicados como deseja o presidente Lula, contribuirão para reduzir as desigualdades sociais num país que, a despeito dos avanços dos últimos anos, tem gente que vive dentro de padrões europeus e norte-americanos e gente que sobrevive em condições africanas.

A exploração dessa riqueza deveria ser motivo de orgulho, unir o país e fazer, ainda que momentaneamente, com se esqueçam diferenças político-partidárias, que tantos danos vêm causando ao desenvolvimento do Brasil.

Deveria, mas não é motivo de orgulho, muito menos de união.

Ocorre justamente o contrário.

Como o início da exploração de petróleo depende de regulamentação e o processo passa necessariamente pelo Congresso Nacional, trava-se uma disputa em que o que menos interessa são os benefícios gerados pela extração das reservas localizadas no mar territorial brasileiro.

E o que mais interessa é a eleição de 2010.

Entra em cena, de novo, a dupla DEM-PSDB (este com seu apêndice, o PPS), disposta a emperrar a aprovação da regulamentação, por considerar o processo apressado e a proposta enviada pelo governo exageradamente nacionalista.

Nada a estranhar para quem entregou a Vale do Rio Doce, as empresas da telefonia, as companhias de eletricidade, tudo a preço camarada e ainda com financiamento público.

Mas, não é apenas isso.

Democratas, tucanos e seus penduricalhos partidários temem que o Pré-Sal traga dividendos eleitorais ao presidente Lula e por extensão à sua ungida para sucedê-lo, a ministra Dilma Roussef. Que, além de petróleo, jorrem votos em profusão, capazes de manter o PT mais quatro anos no Palácio do Planalto.

Daí que é melhor deixar o petróleo quietinho nas profundezas do oceano, adiando sua exploração para 2011, 2012, quem sabe não apenas pela brasileira Petrobrás, mas também por empresas estrangeiras, que o tal neoliberalismo, que muitas vezes não apenas rima mas também se confunde com entreguismo, existe é para isso mesmo.

Dane-se que os excluídos continuem excluídos, que a saúde e a educação continuem capengando, já que a se preservar a proposta de Lula, parte dos recursos gerados pelo Pré-Sal serão carreados para esses setores.

O que importa é a política, sempre a política, naquilo que ela tem de pior.

Dane-se, também, o povo brasileiro, que acaba sendo a vítima dessa batalha entre Deus e o Diabo na Terra do Pré-Sal.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

ISSO É QUE É MULHER DE PEITO!



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Com a colaboração de Wilson Davi

OLHA O BICICLETABANDIDO AÍ, GENTE!


Para o bem e para o mal, Itabuna é mesmo uma cidade que surpreende.

E não é que os motobandidos, que aterrorizam cidade com seus assaltos em série, criaram uma subcategoria, os bicicletabandidos.

No início da tarde desta terça feira (1) um ciclista, simulando estar com um revolver sob a camisa, tentou roubar o celular de um cidadão numa rua próxima à avenida Amélia Amado, centro da cidade.

A vítima percebeu que a “arma” era apenas dedo indicador do meliante pé de chinelo, reagiu e botou o sujeito pra correr.

A regra, entretanto, é não reagir.

A vida vale bem mais do que um celular.

ENCONTROS, DESENCONTROS, 2010


Afinal de contas, a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, teve ou não teve uma reunião a portas fechadas com a ministra Dilma Roussef, em que a pré-candidata a presidenta da república pelo PT teria pedido, de forma enviesada, para que uma apuração contra a família Sarney fosse amaciada?

Durante semanas, o encontro que Lina jura ter havido e Dilma garante nunca ter existido, esse tema ocupou o centro do noticiário nacional, ganhou incontáveis minutos no Jornal Nacional, da Rede Globo, além de generosos espaços nos principais jornais e revistas do país.

O cidadão médio, mesmo sem entender direito o que estava ocorrendo, ficou com a impressão de que Dilma havia cometido um delito da maior gravidade, ainda mais que nele estava embutido o sobrenome Sarney, este sim plenamente reconhecido como o que há de pior na política brasileira.

Por associação, se Dilma tem alguma ligação com Sarney é porque na tal reunião cuja existência até agora ninguém provou ter existido, alguma coisa errada a ministra propôs.

Uma exposição negativa de quase um mês nos veículos de comunicação não é pouca coisa, principalmente se for levado em conta que estamos há menos de um ano do início da campanha presidencial e que Dilma é a única ameaça concreta ao governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, que parece gozar da preferência dos donos da chamada grande mídia.

E o que está ocorrendo?

Passado o foguetório, a pirotecnia, começam a surgir indícios de que a história contada por Lina Vieira, que serviu de combustível para alimentar o fogaréu contra Dilma, pode mesmo não ser verdadeira, como aliás tem insistido a ministra desde o inicio, sem que tenham lhe dado, ao menos, o benefício da dúvida.

E o que vai ocorrer?

Num passe de mágica, feito o estrago desejado, o assunto vai perder importância até desaparecer do noticiário, sem que se faça o necessário reparo aos estragos causados à imagem da ministra.

Mas, quem é que está interessado em reparar estragos se o interesse foi justamente atingir a eventual candidatura de Dilma, mesmo que à custa de uma história em que não há uma prova cabal que a sustente?

Não foi a primeira e nem será a última vez que se recorre a um “factóide”, que se dá uma dimensão infinitamente superior ao fato em si, com o objetivo de influenciar a opinião pública.

Muitos ainda devem se lembrar do “Escândalo do Dossiê”, em que a exibição das fotos de uma aparente montanha de dinheiro às vésperas do 1º. turno das eleições presidenciais, após uma semana de exploração de um tema menor, levou o pleito ao 2º. turno, onde ao contrário do desejado pelos senhores da mídia, não houve manipulação que impedisse o massacre de Lula sobre Alckmin.

Sinal de que o povo pode até assimilar certas práticas, incluindo o lamaçal da política, como normal (o que é lamentável, frise-se), mas não é bobo.

No frigir dos ovos, o imbróglio Dilma Roussef-Lina Vieira é mais um exemplo midiático da célebre Batalha de Itararé, aquela que não houve.

Haverá outras.

Não deu certo em 2002, falhou de novo em 2006.

Entre encontros e desencontros, o foco agora é 2010.

O jogo é bruto, senhoras e senhores!